quinta-feira, 28 de julho de 2016

Anel de Tucum: história, sentido e significado


Essa semana, uma aluna veio perguntar-me o sobre o anel preto que ocasionalmente uso na mão direita. O famoso “anel de Tucum”. Ela usava um também, meio que por meio da formação de sua Diocese, que possuía uma forte experiência passada com a Teologia da Libertação e, conseqüentemente, alguns aspectos ainda eram presentes no comportamento dos fieis.

Para precisarmos nossa conversa, Anel de tucum é um anel feito da semente de tucum, uma espécie de palmeira nativa da Amazônia. É utilizado por fiéis cristãos como símbolo do “compromisso preferencial” das igrejas, especialmente da Igreja Católica, com os pobres. Sim, essa expressão vem dos anos posteriores ao Concílio Vaticano II e foi assumida e repetida nos CELAM’s de Medellin e Puebla.


O uso de anéis é muito antigo e está mais ligado a um simbolismo ritual que a simples prática de adorno corporal. O anel mantinha uma dimensão sagrada como símbolo do que é santo, divino, intacto. Desde os egípcios, assírios, persas, o anel tem essa simbologia sagrada, de união, de compromisso, muito além de simples adorno. No corpo das Sagradas Escrituras, é símbolo de pacto de paz ou matrimonial, alem de revelar a dignidade de pertença a uma determinada família. Faço essa digreção histórica para que possamos perceber que o anel de tucum não é um modismo atual e, menos ainda, a compra da ideologia teológica marxista da Teologia da Libertação, mas antes, pode significar a adesão a um projeto de vida que se oriente para a simplicidade evangélica.

Na época do Império no Brasil, quando o ouro era usado em grande escala entre os ricos proprietários de terra, principalmente nos anéis, os negros e os índios, não tendo acesso ao ouro, criaram o ANEL DE TUCUM como símbolo de pacto matrimonial, símbolo de amizade entre si e também de resistência na luta por libertação. É o processo que Pierre Bordieu chama de dominação simbólica, em que os símbolos da classe dominante vai sendo assumido de forma adaptada pela classe imediatamente inferior, em um processo inconsciente de afirmação de que a classe dominante tem os critérios desejáveis de vida.

O objetivo é resgatar este símbolo é o compromisso e denunciar as causas da pobreza. Este é o compromisso simbolizado nesta aliança natural e escura, cuja única riqueza é a simplicidade.

Além da Bíblia, a opção pelos pobres é testemunhada também por toda a tradição da Igreja, principalmente na experiência dos santos. Esta opção é a essência mesmo da vida cristã porque está ligada à imitação da vida de Cristo. Mas esta opção não é apenas uma responsabilidade individual ou a decisão para revolta e mudança social, se caracteriza por um posicionamento existencial diante da vida, do outro e de Deus, do Deus que está do lado dos pobres porque ama os pobres. Por isso o cristão é chamado a seguir este mesmo exemplo de amor e opção preferencial que tenta promover a dignidade humana. No pobre revela-se o rosto do próprio Deus (Mt 25,40).

Infelizmente, na sociedade líquida em que vivemos, também o poder dos símbolos vai se perdendo. Alguns, sem base e conhecimento algum, afirmam que o anel de tucum é um modo de anunciar a própria homossexualidade ou um adereço do fã club de determinada artista. Grande ignorância que não percebe que o dito artista usa o anel por suas raízes Católicas. Quanto a questão da sexualidade, infelizmente tal confusão vem do fato de que a teologia da Libertação, por sua base marxista, acabava relaxando muitos aspectos da doutrina eclesiástica, misturando o verdadeiro empenho pelo Reino de Deus com a ambição desmedida de instaurar um governo comunista na América Latina.

Não quero demonizar a teologia da Libertação, uma vez que reconheço profundos valores evangélicos e sociais nela, contudo, por uma questão de consciência, sou obrigado a reconhecer que sua proposta de solução é puramente materialista e não reconhece que o homem e a sociedade não são só entidades materiais.


Que aqueles que decidem usar o anel de tucum possam se lembrar das sábias palavras de Dom Pedro Casaldáliga: “(…) Este anel é feito a partir de uma palmeira da Amazônia. É sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas conseqüências. Você toparia usar o anel? Olha, isso compromete, viu? Muitos, por causa deste compromisso foram até a morte (…)”.

sábado, 23 de julho de 2016


Como compreender um texto Filosófico 
Kant, Descartes, Sócrates, Aristóteles, Hume, Voltaire, Maquiável – esses, dentre muitos outros, são autores renomados da filosofia e que todo o estudante da mesma, cedo ou tarde, terá de se deparar com alguma obra. E, tão logo isso aconteça, um problema nos salta aos olhos: como compreender o que esta escrito na referida obra?
Em primeira instância, parece uma questão trivial. Porém, basta olharmos, por exemplo, para um simples fragmento da obra A Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant, para compreendermos a essência do problema:
Ser não é, evidentemente, um predicado real, isto é, um conceito de algo que possa acrescentar-se ao conceito de uma coisa; é apenas a posição de uma coisa ou de certas determinações em si mesmas. No uso lógico é simplesmente a cópula de um juízo. A proposição ‘Deus é onipotente’ contém dois conceitos que têm os seus objetos: Deus e onipotência; a minúscula palavra ‘é’ não é um predicado mais, mas tão-somente o que põe o predicado em relação com o sujeito. Se tomar pois o sujeito (Deus) juntamente com todos os seus predicados (entre os quais se conta também a onipotência) e disser ‘Deus é’, ou existe um Deus, não acrescento um novo predicado ao conceito de Deus, mas apenas ponho o sujeito em si mesmo, com todos os seus predicados e, ao mesmo tempo, o objeto que corresponde ao meu conceito
O leitor não habituado com a natureza dos textos filosóficos, tendo contato com texto supracitado, perceberá as enormes dificuldades acerca da compreensão do mesmo. Donde, compreender-se-á que a leitura de tais textos – principalmente os mais antigos – requer um conhecimento prévio, requer um método – e portante, não é à toa que as universidades, no currículo do curso de filosofia, costumam inserir logo no seu início uma disciplina chamada Metodologia Filosófica ou Introdução aos Textos Filosóficos, dentre outras nomenclaturas.
Por conseguinte, aquele que se propõe a estudar, analisar, criticar, concordar ou discordar de algumtexto, antes de mais nada, deve estar disposto à compreender este mesmo- , para tal se faz necessário entender o pretexto, i. é, a motivação do escritor que levou-o a escrever determinada coisa. E para isso, se faz necessário compreender o contexto, i. é, a localização sócio-histórico-politico-cultural do autor. Para compreender Aristóteles, se faz necessário saber como a sociedade grega estava organizada na época, que ele não era um ateniense, dentre outros fatores que o influenciaram nas suas ideias. Com isso, entender-se-á que o motivo que levou Aristóteles, em sua Ética à Nicômaco, a defender a escravidão, não foi o mesmo motivo que levou o empirista britânico John Locke à fazê-lo, assim como esclarecer-se-á a diferença de argumentação entre ambos, para sustentar o que é, aparentemente, a mesma afirmação. No entanto, mais importante do que compreender o que ambos, Locke e Aristóteles, sustentam, é não julga-los pelos atuais valores sociais que condicionam a nossa visão de mundo – nosso contexto, completamente distinto dos supracitados, encerra um círculo hermenêutico que não se pode ignorar, e olhar para estes ou para qualquer outro pensador com um olhar pejorativo seria uma atitude cega e impensada.

Compreendendo o contexto e posteriormente o pretexto (nesse ponto, surge a importância de ler um resumo biográfico dos autores), entender otexto propriamente torna-se uma tarefa bem menos árdua – ou seja, para compreender o trecho citado no inicio deste artigo, se faz necessário saber que Immanuel Kant viveu entre os séculos XVIII e XIX na cidade de Königsberg (antiga Prússia); que foi altamente inspirado pelo filósofo empirista David Hume; que o trecho pertence à uma obra sobre Epistemologia, na qual Kant tenta responder à pergunta das condições de possibilidade do conhecimento e que na seção aonde encontra-se o texto em questão, Kant dedica-se à refutar a ideia de uma prova ontológica da existência de Deus concebida por pensadores como Descartes e Santo Anselmo.
Portanto, estudar filosofia necessariamente pressupõe conhecer história – pelo menos no que tange ao(s) autor(es) abordado(s). Para tal, em outro momento, será dedicada uma abordagem aos grandes contextos pela qual a filosofia passou – desde os tempos pré-socráticos, até a era contemporânea.

Em relação à leitura do texto filosófico propriamente dita, seguiremos uma obra entitulada Metodologia Filosófica, escrita por Dominique Folscheid e Jean-Jacques Wunenburger. Sintetizando, a obra sugere uma decomposição do texto, procurando definir os seguintes itens:
  • Tema: i. é, sobre o que o autor esta falando no texto, do início ao fim;
  • Tese: a afirmação central do autor, ou seja, qual seu posicionamento a respeito do tema;
  • Problema: o conjunto do tema, da tese e da movimentação argumentativa do autor, suscita uma série de problemas que o autor tentará responder – o foco aqui é detectar qual(is) são este(s) problema(s);
  • Movimentação argumentativa: é o conjuntoordenado de argumentos da qual o autor se utiliza para sustentar sua tese. É uma movimentação essencialmente lógica, i. é, apresenta uma série de premissas, da qual se infere uma ou mais conclusões, e usando dessas conclusões como novas premissas, infere-se em outra conclusão, até atingir sua tese (importante ressaltar que cada autor tem sua forma de elaborar um determinado texto: alguns preferem anunciar sua tese logo no início e em seguida, apresentar seus argumentos; outros, em contrapartida, preferem deixar para apresentar sua tese central no fim do texto, assim como existem outros que apresentam sua tese no meio do texto);
  • Conceitos-chave: neste ponto, apresenta-se a importância de se ter um dicionário filosófico em mãos – pois existem certas palavras-chave na qual cada autor atribuí seu significado específico, mas nem sempre ele faz questão de explicar esse significado. Por conseguinte, anotar os termos centrais do texto para posterior consulta a um dicionário, é de vital importância para a compreensão do mesmo: por vezes, pensamos que um texto critica e discordamos dele por tal, enquanto na verdade ele crítica Y, posto que ele pode ter usado um termo que é normalmente associado à uma tal ideia para referir-se à uma outra ideia diferente da primeira.
A forma mais didática de se realizar este exercício é executá-lo na ordem contrária na qual os itens foram apresentados: primeiro, deve se anotar os conceitos-chave do texto; segundo, determinar quais são os argumentos do texto e em qual ordem aparece, tomando o cuidado para não confundir um argumento qualquer com a tese do autor; terceiro, analísa-se os argumentos para suscitar os problemas os quais o autor tenta responder; por último, levantando as respostas sugeridas pelo autor a esses problemas, procura-se estabelecer qual a sua afirmação central, i. é, afirmação na qual gira em sua volta todos os argumentos do autor – sua tese. Partindo desta, determina-se qual o tema do texto.
Utilizando-se desta metologia, vamos analisar o trecho da obra de Kant citada no início do texto:
  • Sua tese é apresentada logo na primeira linha do texto:
SER NÃO É, EVIDENTEMENTE, UM PREDICADO REAL, ISTO É,UM CONCEITO DE ALGO QUE POSSA ACRESCENTAR-SE AO CONCEITO DE UMA COISA
O que esta em negrito é sua afirmação, sendo que a expressão em destaque – predicado real – é considerada um conceito-chave de vital importância. A seguir, na parte sublinhada, Kant fornece uma lacônica e contundente explicação desse conceito, que será explicada posteriormente no próprio texto. Deste ponto, já é possível determinar o tema central do texto (ainda que este ficará mais clara nos argumentos posteriores): “O significado do juizo de existência, do ‘ser’, do ‘algo existe’ – assim como já é possível imaginar a problemática que o texto tenta responder: Qual o significado do verbo ‘ser? ou Existe um significado particular para o verbo ‘ser’?
  • Continuando na mesma sentença, encontramos seus dois argumentos principais, que não deixam de ser uma parte crucial de sua tese:
É APENAS A POSIÇÃO DE UMA COISA OU DE CERTAS DETERMINAÇÕES EM SI MESMAS. NO USO LÓGICO É SIMPLESMENTE A CÓPULA DE UM JUÍZO.
Cada um dos argumentos foi destacada de uma forma – o primeiro em sublinhado, o segundo em negrito, e então se percebe que Kant esta oferecendo uma resposta à questão Qual o significado do verbo ‘ser’? – e temos ai o problemacentral do texto.
  • Posteriormente, Kant apela para o seguinte exemplo:
A PROPOSIÇÃO ‘DEUS É ONIPOTENTE’ CONTÉM DOIS CONCEITOS QUE TÊM OS SEUS OBJETOS: DEUS E ONIPOTÊNCIA; A MINÚSCULA PALAVRA ‘É’ NÃO É UM PREDICADO MAIS, MAS TÃO-SOMENTE O QUE PÕE O PREDICADO EM RELAÇÃO COM O SUJEITO.
Este trecho serve de sustentação para o segundo argumento (ser enquanto cópula de um juízo). Aqui, ele explicita a função semântica do verbo ser na frase ‘Deus é onipotente’ que aparece conjugado na 3ª pessoa do singular (é): este executa a mera função de conectar o sujeito Deus com o predicado onipotente; ao passo que onipotente é considerado um predicado real, ou seja, ele é acrescentado ao conceito Deus, e acaba por expandir seu significado. Aqui, Kant quer demonstrar que o verbo ser não possui a mesma função do adjetivo onipotente, i. é, o ser não expande o conceito de Deus e, portanto, não é um predicado real (tese).
  • E para sustentar seu primeiro argumento – o ‘ser’ sendo usado para evidenciar a posição do sujeito ou de suas determinações -, Kant diz:
SE TOMAR POIS O SUJEITO (DEUS) JUNTAMENTE COM TODOS OS SEUS PREDICADOS (ENTRE OS QUAIS SE CONTA TAMBÉM A ONIPOTÊNCIA) E DISSER ‘DEUS É’, OU EXISTE UM DEUS, NÃO ACRESCENTO UM NOVO PREDICADO AO CONCEITO DE DEUS, MAS APENAS PONHO O SUJEITO EM SI MESMO, COM TODOS OS SEUS PREDICADOS E, AO MESMO TEMPO, O OBJETO QUE CORRESPONDE AO MEU CONCEITO.
Neste trecho, Kant se dirige diretamente para os juízos de existência, por exemplo: “Deus existe”; “Deus é”, ou podemos alterar o exemplo para facilitar o entendimento: “O livro éazulpequeno e existe.” Neste último exemplo, a frase atribuí dois predicados reais ao sujeito livro: azul e pequeno. O adjetivo existe (“é”) não pode ser considerado um predicado real (tese), pois este – em contrapartida aos conceitosazul pequeno – não aumenta meu conceito de livro, mas sim, coloca o sujeito em questão (juntamente com todos os seus predicados reais) em evidência, relacionando esse sujeito com o objeto empírico que corresponde meu conceito de livro (claro, no texto, o exemplo utilizado é Deus e não livro).

Deste ponto, o trecho que era inicialmente de difícil compreensão torna-se legível até para os mais leigos no assunto, e a filosofia deve ser assim: clara, sucinta e metódica. Claro, Kant escrevia de tal maneira devido ao contexto sócio-histórico-político-cultural em que vivera, por isso seus textos – assim como o de muitos outros – tende a ser de dificílima compreensão. Contudo, com o método adequado, não existe texto impossível de ser compreendido (com exceção daqueles que escrevem na pura intenção de confundir os leitores – mas estes nem deveriam se encaixar na concepção de filosofia).
Bibliografias:
– FOLSCHEID, Dominique; WUNENBURGER, Jean-Jacques; Metodologia Filosófica, Martins Fontes, São Paulo, 2002

domingo, 26 de junho de 2016

Para começar a entender a Bíblia...



A  Memória  Como Experiência De Deus No Antigo Testamento:  Pentateuco  e Livros Históricos

1.      INTRODUÇÃO
Já dizia São Jerônimo que conhecer as Escrituras é conhecer Cristo, e que ignorá-las, é, também, ignorar ao Senhor.
Nesse sentido, pretendemos fazer um percurso introdutório ao Antigo Testamento, com o corte de pesquisa para os temas que nos parecem ser os mais necessários de serem recordados nos dias de hoje, em que a multiplicidade de doutrinas tendem a obscurecer o único Evangelho de Jesus Cristo pregado pelos Apóstolos.
Com tal objetivo, vamos recordar o que é a Bíblia e em que contexto cultural ela nasceu. Estaremos dando por suposto que o leitor tenha clareza de que a Revelação de Deus se dá pela Tradição e pela Escritura, autenticamente interpretadas pelo Magistério.
Depois, vamos precisar o significado de alguns termos centrais na teologia bíblica e que, justamente por isso, o serão também em todo o desenvolvimento teológico. Contudo, tal precisão conceitual será realizada em uma leitura transpessoal dos próprios conceitos, com o objetivo de mergulhar o leitor na experiência do mistério de Deus que se deixa contemplar ali.
A pretensão desse pequeno artigo não é a de falar nada novo, pois o autor entende que sua missão teológica é comunicar aquilo que foi recebido no seio da Tradição da Igreja. Mas, de provocar um Novo na vida de quem tem contato com essa pequena obra. Isto é, a partir das indicações e provocações aqui redigidas, que o leitor se deixe alcançar pela graça e pela verdade, que as busque em sua vida e que, as tendo encontrado, seja um comunicador das misericórdias do Senhor, como o fez Maria, a Virgem, Esposa e Mãe.

2.  PROCESSO DE FORMAÇÃO CANÔNICA DO CORPO BÍBLICO: FOCO NO ANTIGO TESTAMENTO
O conteúdo do que hoje chamamos de Bíblia surge com a história do povo de Israel. Esse povo cria uma literatura vasta em gêneros, na qual pretende registrar suas reflexões, sua sabedoria, história e oração. Entretanto, o fundamento do ato produtivo de escrever não é a mera necessidade de registro, mas, antes, o fato de que o Deus único caminha com o esse povo, que o elegeu como propriedade sua e que com ele tece os rumos da história.
Em nível de contextualização, o povo que chamamos de “Povo de Deus” era, inicialmente, um grupo de migrantes da Mesopotâmia (Iraque, atualmente) e que eram chamados de hebreus. A origem comum desse povo é a figura de Abraão, homem chamado por Deus a deixar a cidade de Harã e tomar posse da promessa de Deus, Canaã (Gn 12, 1ss), em torno do ano 1850 a.C.
A palavra Bíblia significa “Livrinhos”, pois deriva do grego biblion,  que é a palavra “livro” no diminutivo.  O termo “Bíblia” não era usado no mundo judaico, sendo uma característica do Cristianismo Católico, uma vez que foi usado pela primeira vez por São João Crisóstomo, no quarto século depois de Cristo.
Quando falamos da Bíblia Cristã, estamos falando de um conjunto de 73 livros divididos em duas partes: Antigo Testamento e Novo Testamento. O vocábulo “Testamento” vem da tradução grega da palavra hebraica Berit, que quer dizer “aliança”, “pacto”. Uma observação importante é que esse conceito será central em todo o desenvolvimento da Revelação de Deus, tanto que o conjunto dos livros sagrados são divididos em duas narrações interligadas, a Antiga Aliança e a Nova. Ambas celebradas por iniciativa de Deus e tendo a sua fidelidade mesmo como suporte; ambas celebradas com sangue, símbolo da vida, no qual somos imersos na vida de Deus.
Os livros bíblicos são, então, re-divididos de acordo com sua temática e estilo. Assim temos:


Livros do Antigo Testamento (46 Livros)
PENTATEUCO (5)
- Gênesis
- Êxodo
- Levítico
- Números
- Deuteronômio
HISTÓRICOS (16)
- Josué
- Juízes
- Rute
- I Samuel
- II Samuel
- I Reis
- II Reis
- I Crônicas
- IICrônicas
- Esdras
- Neemias
- Tobias
- Judite
- Ester
- I Macabeus
- II Macabeus
POÉTICOS E SAPIENCIAIS (7)
- Jó
- Salmos
- Provérbios
- Eclesiastes
- Cântico dos Cânticos
- Sabidoria
- Eclesiástico
PROFETAS  MAIORES (6)
- Isaías
- Jeremias
- Lamentações
- Baruc
- Ezequiel
- Daniel
PROFETAS  MENORES (12)
- Oséias
- Joel
- Amós
- Abdias
- Jonas
- Miquéias
- Naum
- Habacuc
- Sofonias
- Ageu
- Zacarias
- Malaquias
Livros do Novo Testamento (27 Livros)
EVANGELHOS (4)
- Evangelho segundo São Mateus
- Evangelho segundo São Marcos
- Evangelho segundo São Lucas
- Evangelho segundo São João
- Atos dos Apóstolos
EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO (13)
- Romanos
- I Coríntios
- II Coríntios
- Gálatas
- Efésios
- Filipenses
- Colossenses
- I Tessalonicenses
- II Tessalonicenses
- I Timóteo
- II Timóteo
- A Tito
- A Filemon
- Hebreus
EPÍSTOLAS CATÓLICAS
- Epístola de São Tiago
- Epístola I de São Pedro
- Epístola II de São Pedro
- Epístola I de São João
- Epístola II de São João
- Epístola III de São João
- Epístola de São Judas
- Apocalipse




Os protestantes não consideram livros bíblicos os seguintes livros: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus (e partes de Ester e Daniel). Desse modo o Antigo Testamento dos protestantes tem apenas 39 livros, invés dos 46 da bíblia católica. O Novo Testamento é idêntico para as duas confissões, sendo composto por 27 livros.
Os 7 livros mencionados acima foram escritos em grego (como os livros inspirados do Novo Testamento), enquanto que todos os outros livros do Antigo Testamento foram escritos em hebraico. Por isso, embora sendo livros antigos, os judeus não os incluíram na lista (cânon) de livros que consideram como Sagrada Escritura. Essa decisão dos judeus foi tomada por volta do ano 100 depois de Cristo, no Concílio de Jamnia[1]. Os cristãos, ao invés disso, acolheram esses 7 livros dentro da sua lista de livros inspirados por Deus.
No tempo da Reforma, protagonizado por Lutero, no século XVI, os protestantes decidiram adotar o Antigo Testamento segundo os parâmetros dos judeus e, portanto, excluíram os 7 livros, embora Lutero ainda os tenha colocado na sua Bíblia, mesmo sublinhando que não tinham a mesma importância dos outros livros, em um apêndice ao Antigo Testamento. Contudo, destaca-se aqui a incoerência para o discernimento: ora, os judeus usaram a regra em Jamnia para invalidar os textos cristãos, e é esse critério mesmo que Lutero vai usar para estabelecer a sacralidade dos textos fundamentais da sua proposta bíblica.
Acontece que desde os séculos III e II a.C., em Alexandria do Egito, havia uma próspera colônia judaica, que vivendo em terra estrangeira e falando a língua comum (grego), contava  entre seus escritos  os supracitados livros que não se encaixavam nos critérios de Jamnia. Ou seja, os livros deuterocanônicos desprezados por Jamnia, eram acolhidos nas bíblias judaicas fora da Palestina, chamadas de versão dos LXX.
É interessante notar que os Apóstolos e os Evangelistas, ao escreverem o Novo Testamento em grego, citavam o Antigo Testamento na versão de Alexandria, mesmo quando essa divergia do texto hebraico, como podemos observar em Mt 1,23 que faz referência ao texto grego de Is 7,14; ou ainda Hb 10,5, que faz referência ao Sl 39/40, 7. Foi o texto que se tornou o comum entre os cristãos dos primeiros séculos. Isso fica evidente no próprio texto sagrado do Novo Testamento em que encontramos cerca de 350 citações do Antigo Testamento, das quais 300 são da versão dos LXX.
Ao falarmos, aqui, de canonicidade, não estamos tratando de uma escolha arbitrária dos textos que fossem convenientes aos interesses de sua época, mas da reflexão séria e profunda sobre a verdade da inspiração divina em determinados textos. Ou seja, daquela iluminação da graça que o Espírito Santo cumulou a mente de determinados homens (hagiógrafos) para que pudessem, com os dados de sua cultura religiosa e de seu tempo histórico, transmitir o pensamento de Deus. Com essa correta contemplação do hagiógrafo, percebemos que o texto bíblico é um texto divno-humano,  isto é, todo de iniciativa e obra de Deus e todo do homem.
Ora, isso nos faz perceber também que a finalidade do texto bíblico é religiosa; é a visão religiosa do coração do homem sobre os fatos que vão se sucedendo em sua vida e através da qual se revela ao homem o plano salvífico de Deus para a história universal.

3.      PANORAMA HISTÓRICO DA CONSTITUIÇÃO DO POVO DE ISRAEL
            A história de Israel como povo remonta ao ano de 1850 a. C., com Abraão. Este estabelece sua vida em Canaã e ali cria sua família como fruto das promessas que Deus lhe fizera. (Gn 22, 17). É a Abraão e a seus descendentes, Isaac (Israel) e Jacó, a quem chamamos de Patriarcas, isto é, fundadores do povo de Israel.
            Com o passar dos anos, Canaã foi atormentada por uma grave seca e a vida se tornou muito difícil na região, o que levou Jacó e seus filhos tomarem como decisão mudar-se para a região do Egito, que, na época, apresentava terras mais férteis e com maior possibilidade de construção de vida. Essa partida para o Egito era parte do projeto salvífico de Deus que, em sua providência, tirou da maldade dos filhos de Jacó a salvação de toda sua família, pois por inveja, os filhos de Jacó haviam vendido seu irmão mais novo, José, como escravo para comerciantes egípcios. E será graças a presença de José no Egito que a família de Jacó encontrará acolhida e oportunidade para crescer e se multiplicar.
            Com a morte de José e com o aumento expressivo de hebreus, os faraós temem a força que esse povo pode vir a ter e o escraviza sob dura opressão. Dentro deste contexto, Deus intervém fazendo surgir a figura de Moisés, que será enviado ao Faraó para providenciar a libertação do povo  Hebreu e para reconduzir esse povo para a terra que Deus lhe prometera em Abraão.
            Contudo, esse processo de libertação foi um processo difícil e longo, tanto quanto a dureza do coração do faraó quanto da parte do povo que se mantinha empedernido diante da Palavra de Deus que se dirigia a ele por meio de Moisés. Desde a páscoa, se passaram 40 anos até que o povo, tendo atravessado o deserto, pudesse, enfim, entrar na terra prometida.
            Com a morte de Moisés, quem assume a liderança do povo é Josué, o primeiro dos Juízes de Israel. Aos poucos, o povo vai tomando posse da região e vai se organizando em doze tribos, em memória dos doze filhos de Jacó. Esse esquema de organização se pauta na vontade que o povo tem de viver a fraternidade na liberdade garantida pela Lei que Deus foi plantando no coração desse mesmo povo ao longo da jornada no deserto (Ex 20,1- 21).
            Inspirado na experiência política circunvizinha, após diversos ataques de outros povos, o povo de Israel, em torno do ano 1030 a.C., sob o governo do Juiz Samuel, vai desejar constituir-se em monarquia, isto é, ter o seu governo centrado na figura de um rei (ISm 8, 4ss). O primeiro a assumir o trono em Israel é Saul, sucedido por Davi, tido como o maior rei de Israel, e Salomão, em cujo reinado começaram a ser escritos os textos bíblicos.
Com a morte de Salomão em 931 aC., o reino é mergulhado em inúmeras tensões políticas e acaba sendo dividido em dois:
a. O Reino do Norte (Samaria), que não aceita o filho de Salomão como Rei. Este é o Reino que receberá o nome de Israel, sob o rei Jeroboão I.
b. O Reino do Sul (Jerusalém), que permanece fiel à família de Davi. Este reino receberá o nome de Judá, sob o rei Roboão.
Ciclos de Dominações
            Por ser uma região central entre a África e a Ásia, a porção de terra em que se estabelecia o povo de Israel era muito desejada pelas grandes potências da época, sendo submetida por diversos impérios.
            Esses processos de dominação são vitais para que possamos compreender a evolução teológica do conceito de revelação e do profetismo no corpo bíblico.
            Entre 724 e721 a.C. a Assíria invade o Reino do Norte (Israel) e toma posse daquela região, destruindo a Capital do reino, Samaria. Os sobreviventes são deportados para a Assíra. Termina, assim, o Reino do Norte.
            Em torno de 587 a.C., o império da Babilônia vence a Assíria e toma posse do Sul (Judá), levando boa parte da população de Judá para a capital do Império, onde permanecerá por 50 anos. Esse é o período que o corpo escriturístico vai chamar de Exílio.
            A Babilônia, por sua vez, será vencida pelo império Persa em 539 a.C.. Nessa ocasião, Ciro, o rei Persa, permite que os judeus voltem para sua terra. É aqui começa a reconstrução do Templo de Jerusalém. Contudo, o povo de Deus nunca mais teve liberdade política. Assim, Deus vai inspirando e revelando ao povo a promessa de um rei libertador, um Messias descendente de Davi que libertaria o povo de Deus da opressão.

4.      CONSTITUIÇÃO JUDAICA DO TEXTO SAGRADO
Para os judeus, o nosso Antigo Testamento, era designado com a palavra TANAKH, que é o acróstico de três letras, tav (ת) de Torah (lei), nun (נ) de Neviim (profetas),  e caf (כ) de Kethuvim (Escritos). A palavra Tanakh é derivado da junção dessas divisões. O Tanakh é a parte incontroversa da Bíblia, tanto para o Judaísmo quanto para o Cristianismo.
Assim formando a palavra: תנ״ך. TANAKH =  Toráh (תורה)+ Neviim (נביאים)+ Kethuvim (כתובים).
Ao todo, a Tanakh é composta de 39 livros divididos em suas três partes:
Torah
Torah (תורה) ou Torá, que significa Lei, é o nome da primeira parte, que é constituída pelos cinco primeiros livros da Bíblia, que são Gênesis (Bereshit), Êxodo (Shemot), Levítico (Vaicrá), Números (Bamidbar) e Deuteronômio (Devarim). Estes cinco primeiros livros da Bíblia, na verdade são um só livro, chamado “O Livro da Lei” (em hebraico, Sêfer Torá), ou simplesmente “A Lei” (Torá), ou “A Lei de Deus”, ou “A Lei de Javé”, ou “A Lei de Moisés”, ou Pentateuco (em hebraico, Chumash”).
Neviim
Neviim (נביאים), que significa Profetas, é o nome da segunda parte da Bíblia, que é constituída pelos livros de Josué (Iehoshúa), Juízes (Shofetim), 1 Samuel (Shemuel Álef), 2 Samuel (Shemuel Bet), 1 Reis (Melahim Álef), 2 Reis (Melahim Bet), Isaías (Ieshaiáhu), Jeremias (Irmiáhu), Ezequiel (Iehezkel), e “Os Doze” (Shenem Assar) – Oséias (Hoshêa), Joel (Iôel), Amós (Amós), Obadias (Ovadiá), Jonas (Ioná), Miquéias (Mihá), Naum (Nahum), Habacuque (Havacuc), Sofonias (Tsefaniá), Ageu (Hagai), Zacarias (Zehariá) e Malaquias (Malahi).

Kethuvim
Kethuvim (כתובים), que significa Escritos, é o nome da terceira parte da Bíblia, que é constituída pelos livros de Salmos (Tehilim), Provérbios (Mishlê), Jó (Jov), Cântico dos Cânticos (Shir Hashirim), Rute (Rut), Lamentações (Echá), Eclesiastes (Cohélet), Ester (Ester), Daniel (Daniel), Esdras (Ezrá), Neemias (Nehemiá), 1 Crônicas (Divrê HaYamim Álef), 2 Crônicas (Divrê HaYamim Bet). Estas escritas por David, Shelomô (Salomão), filhos de Corach, Mordechai, Daniel, Cronistas… Estes escritos abordam os mais diversos assuntos, referentes a historias do Povo Judeu, amores por Am Israel e ao Shabat, Sabedoria, louvores, Lamentações, crônica.

5.      O PENTATEUCO
Os nomes dos cinco primeiros livros que temos na versão cristã das Escrituras são de origem grega e devem-se a tradução alexandrina, também chamada dos LXX. Os nomes estão relacionados aos conteúdos dos livros, quase como que uma sinopse do conteúdo do livro. Assim temos:
1. Gênesis: o nome significa “origem”, porque esse livro começa falando da origem do mundo e do homem em Deus;
2. Êxodo: o nome significa “saída”, porque trata da saída dos judeus prisioneiros no Egito;
3. Levítico: o nome significa “dos sacerdotes levitas”, pois apresenta as leis para o culto de Deus;
4. Números: pois o livro começa pela história de um recenseamento feito por Moisés no deserto;
5. Deuteronômio: o nome significa “segunda lei”, pois o livro propõe uma nova apresentação da lei.

            O Pentateuco possui uma importância histórica, religiosa e moral única, de modo que nenhum outro documento a ele se compara. Sua proposta mais profunda não é a de contar como a origem do universo se deu ou de estipular uma ciência histórica, mas sim de mostrar o que e quem é a origem de tudo o que há e de como esse Deus que todo criou desejou realizar para si um povo com o qual se relaciona de modo singular.
             A Torah é o fundamento da vida e do pensamento da comunidade judaica, de sua concepção de Deus e do mundo, do homem e da natureza, da sua própria identidade e das leis que regem a relação do homem com Deus e com os outros homens. Suas palavras pretendem iluminar e dirigir a vida religiosa, moral e jurídica dos judeus. O cristianismo, como herdeiro das tradições judaicas, começa a sua teologia aqui.
            Contudo, a experiência cristã dos textos, não é a de voltar para trás como uma recordação da Lei, mas um “fazer memória” de como a Lei foi a preparação para que Jesus, a Palavra e a Lei, viesse redimir os homens e inscrever a Lei do Pai, com o poder do Espírito, no coração dos homens.
Em uma leitura ampla, podemos dizer que o Pentateuco possui cinco eixos temáticos:
1. Criação do mundo e do homem;
2. Libertação/ Salvação
3. Aliança;
4. Lei;
5. Promessas.
Os cinco pontos supracitados aparecem com freqüência, em tom de recordação nos profetas, de meditação nos históricos e de cumprimento no Novo Testamento. Percebe-se, daí, que a Torah não é apenas o inicio cronológico da narração bíblica, mas também seu inicio conceitual de reflexão teórica e salvífica, ou seja, seguindo o modo de revelar-se de Deus, manifesta-se com Palavras acompanhadas de atos que as Realizam, palavras e ações de Deus manifestas no tempo da história.
A estrutura do Texto do Pentateuco é mais ou menos a seguinte:
1. GÊNESIS: compreende duas partes: Gn 1 – 11 e 12 – 50. A primeira é chamada “pré-história bíblica”, porque apresenta acontecimentos anteriores à história bíblica, que começa no capítulo 12, com Abraão.
            - Deus fez o mundo e o homem muito bons;
            - o pecado perverteu a beleza original;
            - Deus separa um homem e a sua descendência para serem os     depositários da esperança de um Messias Salvador;
A segunda parte do Gênesis apresenta a história dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, mediante os quais Deus vai realizando o seu plano de salvação e se vai dando a conhecer aos homem.
2. ÊXODO: descreve a saída do Egito mediante as dez pragas e a celebração de Páscoa (1,1 – 15, 21); a caminhada até o monte Sinai (15,22 – 18, 27); a Aliança e a legislação do Sinai (19, 1 – 40,38).
3. LEVÍTICO: apresenta coleções de leis relativas ao culto (1,1 – 10,20) e à santidade do povo (11,1 – 27, 34).
4. NÚMEROS: apresenta leis mescladas com a narrativa da caminhada do povo no deserto até ás margens do Jordão (1,1 – 36, 13).
5. DEUTERONÔMIO: apresenta cinco sermões de Moisés que recapitulam a Lei (1,1 – 4,43; 4,44 – 11,32; 12,1 – 28,68; 28,69 – 30, 20; 31, 1-29) e a narração do fim da vida Moisés (31,30 – 34, 12).
No Pentateuco, vemos que, depois do pecado, Deus faz uma promessa de salvação ao homem: a libertação de todo o pecado e de suas conseqüências, a derrota do Maligno por um descendente de Mulher que lhe esmagará a cabeça. Para isso, na chegada do tempo oportuno, Deus mesmo põe em marcha o seu plano salvífico, constituindo um povo para si e instruindo-o, para dele fazer brotar Jesus Cristo Senhor.
A lei surge, neste contexto, como elemento que distingue Israel de todos os povos. Sua Lei não está pautada só na horizontalidade do outro, mas firma-se na verdade da verticalidade do Totalmente Outro que vem ao encontro do homem para salvá-lo do pecado. Assim, a Lei é uma educadora que prepara a humanidade para a acolhida da Lei derradeira, que será o Espírito Santo derramado no coração do homem.
Contudo, não se deve jamais interpretar a Lei como um legalismo externo e estéril. Antes, ela é um convite a um relacionamento intenso e existência com Deus. A Lei é dada aos homens no contexto da Aliança (berit), isto é, no contexto em que Deus toma a iniciativa de fidelidade, a assume e a eleva em uma extrema intimidade ao dizer  a fórmula matrimonial  como forma do pacto que realiza com seu Povo: “Eu serei o seu Deus; Tu serás o meu povo” (Ex 6,7). A relação em que a Lei é dada ao povo é uma relação esponsal, o que a configura como um dom de festividade, não como uma imposição opressora, é mais dom que dever.
Ainda nessa linha de interpretação, vemos que a Lei é uma pedagoga, na medida em que seus ordenamentos visam fazer com que o homem possa assumir uma vida mais humana, mais aberta a Deus e ao outro, menos fechada em si mesmo e menos vítima das imposições instintivas pervertidas pelo pecado original. Seguir a Lei é trilhar um caminho de vida e para vida plena e feliz, não só em uma visão escatológica, mas já aqui e agora.
Prova disso é a própria estrutura do decálogo que antes de todas as ordenanças, exige que o crente entre em relação com o Deus de Israel[2] (Ex 20,2; Dt 5, 1-6) que atuou no passada para sua salvação e que “é rico em amor e fidelidade” (Ex 34,6). Essa verdade é tão radical na existência do homem, que o povo de Israel vai proclamá-la de geração em geração como sendo a sua identidade: Shemá!!!(Dt. 6, 4-9)

6.      FÉ COMO MEMÓRIA, VIDA COMO HISTÓRIA
O segundo grupo de livros do Antigo Testamento Cristão é o chamado “Históricos”.  Aqui, cabe fazer uma ressalva de significado. O termo história, entendido como ciência, é um elemento próprio do período moderno. Na antiguidade, quando se falava de “contar a história”, não se pensava em rigor científico de descrição dos fatos com imparcialidade, mas em uma característica de contar os fatos de modo artístico para que estes ficassem gravados na memória e fossem conhecidos de todos.
Os livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1e 2 Reis foram escritos pela mesma escola de escribas que produziram o Deuteronômio, assim, percebemos como na narrativa desses livros o tema da Lei e da fidelidade a ela é contemplado de modo muito concreto nas decisões dos personagens e de como essas decisões os aproximam de Deus e da felicidade quando seguem a direção da Torah, ou os encerram em tristeza e amargura pelo afastamento da Lei e, conseqüentemente, de Deus.
Uma outra característica desse grupo textual é a compreensão da missão do homem de Deus em meio a vida política e social de Israel. Nesse período, o povo é convidado a deixar-se dirigir em todas as esferas de sua vida pública pela Palavra de Deus transmitida pelos profetas. Nesse sentido, surge a figura do “rei segundo o coração de Deus” (Davi) que deve administrar a Terra prometida por Deus para o bem de todos (Dt 15,4-11). Essa terra é expressão da Aliança de Deus com seu povo, se o povo a perde e é conduzido ao exílio, é justamente por conta de ser infiel à aliança celebrada com Deus.
Os livros históricos nos relembram que Deus faz o caminho da vida com o seu povo, que nada lhe é estranho, mas que Ele mesmo se interessa por cada um dos detalhes da vida pessoal e comunitária dos seus. Assim, olhar para trás é ver o que Deus realizou em sua fidelidade, certos de que Ele não muda e que, se operou ontem por amor aos seus, hoje fará o mesmo por amor a nós.
Na fé de Israel, o conceito de memória é algo único e de extrema importância na vida do crente. Contudo, não estamos falando de memória no sentido de registro mental de fatos, mas sim de aprender, sempre mais e de novo, a recordar, em uma atitude de fé, para discernir o mistério da presença de Deus que se esconde nas circunstancias da história e da própria vida do crente.
O homem nasceu para recordar. É na faculdade da memória que as experiências da pessoa vão sendo entendidas e integradas a fim de enriquecer e revelar, progressivamente, a identidade do sujeito, sempre mais convidada pela existência a desenvolver-se no tempo. É um atributo próprio da memória conservar a perfeição que vai sendo adquirida e conquistada com o tempo.
Assim, nos livros históricos contemplamos como a memória é a faculdade decisiva para realizar a viagem da vida, a viagem que conduz a Deus. Como Deus mesmo vai constituindo a história como mestra da pessoa e como a história pessoal vai se tornando morada do mistério.
O crente, ao fazer memória, constrói o seu passado, entendendo o seu significado profundo e radical, interpretando-o  e reinterpretando-o de modo criativo e coerente; sem leituras superficiais e sem sofrimentos estéreis ou resignações passivas, mas carregando-o de sentido e de conexões significativas internas, que vão confirmando e enriquecendo o sentido geral da vida.
Ao professar a fé no Deus de Israel, o sujeito individua o significado da sua vida e morte. Ao fazer memória, consegue entender o significado de cada acontecimento ou descobrir em cada acontecimento a sua lógica existencial; é ter encontrado o cordão que liga e mantém unidos todos as fragmentos do viver, tais como as contas de um Rosário, e cuja ponta está na mão do Deus Fiel. Desse modo, o israelita piedoso acredita recordando a ação de Deus na história de Israel e recorda acreditando na fidelidade de Deus que não muda. É essa memória que Moisés recomendou inúmeras vezes que o povo não perdesse, que está na base do Shemá e da Páscoa, isto é, uma memória que não se volta para o passado de modo exclusivo, mas se projeta rumo ao futuro, pois a memória não é apenas crônica de eventos que se foram, mas um acontecimento na história da salvação que produz efeitos redentores aqui e agora, renovando, em cada hoje da história, seu significado e eficácia.

7.      CONCLUSÃO
A Sagrada Escritura demorou quase dois milênios para chegar a sua atual configuração, tanto textual quanto canônica. Ela recebeu diversos autores, revisores e camadas redacionais nos textos que foram declarados inspirados, o que levou em conta o fato de que Deus se utiliza desses contingências no tecer de sua providência.
Desse modo, a história de Israel foi sendo compilada e significada pela mão de Deus que, tal qual pastor, foi conduzindo seu povo ao conhecimento de si mesmo e do Deus Fiel da Aliança que ia estabelecendo sua morada no meio deles por intermédio dos diversos acontecimentos, em uma pedagogia profunda e paciente.
Ao contemplar, dentro deste contexto, os livros do Pentateuco e os Livros que compõe o bloco “Históricos”, percebemos que dentro dessa imensa diversidade de pessoas e de anos, o Espírito Santo foi zeloso em conservar a unidade de toda a Escritura em seu projeto salvador, que é dar a conhecer Jesus, o Cristo, que nos leva à comunhão com o Pai, no Espírito.
Desde o começo do texto Sagrado, vamos vendo como paulatinamente os conceitos centrais do cristianismo vão sendo cunhados e vão recebendo significados que brotam mais da vida que de elucubrações, mais da história vivida que da mesa do escriba, mais do coração de Deus que da capacidade imaginativa do homem.
Assim, o conhecimento teórico e espiritual desses textos não é apenas um novo dado ao conjuntos de dados culturais que temos, ou apenas um conhecimento ético normativo antigo. Antes, é a percepção da fidelidade de Deus que se inclina para se dar a conhecer e, nesse conhecimento de amor, nos salvar.










8.      BIBLIOGRAFIA

ANTONIAZZI, Alberto. ABC da Bíblia. São Paulo: Paulus, 1982.
Um livreto introdutória ao mundo bíblico, com linguagem muito acessível, porém um pouco refém da teologia dominante da época (Libertação), mas que serve de vademecum.
BAZAGLIA, Paulo.  Primeiros Passos com a Bíblia. São Paulo: Paulus, 2001.
Excelente introdução histórica ao mundo bíblico, com linguagem acessível e um embasamento teológico sadia, apesar de muito simples.
BETTENCOURT, Estevão. Curso Bíblico: Mater Ecclesiae. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2011.
Um manual preciosíssimo para todos os que desejam estudar a Sagrada Escritura com profundidade e de acordo com o método histórico-crítico proposto pelo Magistério recente.
CENCINI, Amedeo.  A árvore da vida: proposta e modelo de formação inicial e permanente. São Paulo: Paulinas, 2007.
CNBB. Bíblia Sagrada. São Paulo: Canção Nova, 2013.
Uma preciosidade para os brasileiros, quer pela tradução acurada, quer pelas notas, mapas e referências. Além disso, apresenta o texto da “Dei Verbum” na íntegra e excelentes introduções aos blocos de livros e a cada livro em particular.
FLORES, José H. Prado. História da Salvação. São Paulo: Loyola, 2000. (Col. Kerygma; 10)
Um bom apanhado história da Salvação feito em leitura transpessoal, o que conduz o crente a um posicionamento existencial ante o mistério da Salvação em si  mesmo e de sua salvação pessoal em Cristo.
LÓPEZ, Féliz Garcia. Trad. Alceu Luiz Orso. O Pentateuco: introdução à leitura dos cinco primeiros livros da Bíblia. São Paulo: Ave-Maria, 2004. (col. Introdução ao Estudo da bíblia; 3a)
Coleção excepcional para interiorização do estudo bíblico, com uma linguagem técnica teológica e profundamente aberta para a discussão de diversas escolas hermenêuticas.



[1] O Concílio de Jamnia teria sido proposto com a finalidade de dar um rumo para oJudaísmo, após a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 d.C., e o advento da propagação da seita de Jesus Nazareno, cujos textos de seus célebres seguidores já estavam se popularizando como Escrituras Sagradas. Assim, nesse concílio regional, os participantes teriam decidido, sob pretexto de desabonar as letras cristãs, considerar como textos canônicos do Judaísmo apenas aqueles cujos originais tivessem sido compostos em língua hebraica, dentro dos limites da Terra Santa e que, no mínimo, remontassem ao tempo do profeta Esdras. Tais critérios canônicos, portanto, invalidavam para esse grupo não apenas os textos cristãos venerados pelas comunidades cristãs – visto que não eram, evidentemente, contemporâneos a Esdras, nem tinham sido compostos em hebraico, sendo que alguns foram elaborados fora das muralhas de Jerusalém. Apesar de a crítica moderna afirmar que vários livros que constam no cânon hebraico são posteriores ao tempo de Esdras (como é o caso do Livro de Daniel, Crônicas, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes), os estudiosos explicam que os fariseus não dispunham do método científico que existe hoje para datar uma obra, ou mesmo para atribuir-lhe autoria.
[2] Cf. Bento XVI. Deus Caritas est. N° 1.

domingo, 20 de março de 2016

O que significa Hosana?


Hosana era uma suplica hebraica de auxílio[1], mas que expressa uma convicção da ação divina em favor do suplicante: “Agora, Senhor, Nosso Deus, salva-nos de sua mão para que saibam todos os reinos do mundo que somente tu, Senhor, és Deus!” (2Rs 19,19). Originalmente, Hosana significava “socorro”, como um apelo, mas posteriormente converteu-se em brado, pela absoluta certeza de que o Senhor de Israel não é insensível ao clamor do seu povo e que, por ser o Deus fiel, intervirá ao ser invocado.
            Na liturgia da Igreja Católica, a saudação Hosana é assumida para exaltar a realeza de Cristo Senhor Salvador presente no meio de seu povo.
            Na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, o povo retoma o Salmo 118, 25 em que temos o a forma imperativa longa (hoshi‘ana): Salva-nos, agora, te pedimos, ó SENHOR; ó SENHOR, te pedimos, prospera-nos. Esta citação é importante para entender o contexto em que era usado este termo. Jesus entra em Jerusalém como Messias Salvador, como Rei e Senhor do coração dos homens, inaugurando, em sua carne, um povo santo para o Pai, no Espírito!


[1] 2Rs 6,26

sábado, 19 de março de 2016

O Jogo da Imitação (Resenha)


            Pedro Paulo Rodrigues Santos

Qual o impacto que nossas decisões podem ter na vida das pessoas ao nosso redor? As escolhas corriqueiras que fazemos ao orientar nossos dias podem afetar a humanidade? Ou melhor, nossa personalidade tem algo a acrescentar ao tecido que chamamos “história”?
          Questões como essas saltavam intuitivamente em minha mente enquanto assistia ao longa O jogo da imitação ( The imitation Game, no original).
            O filme é ambientado no Reino Unido e se passa no contexto da Segunda Grande Guerra. Contudo, essa não é uma produção sobre guerra, mas sobre a vida e, nesse caso, a vida de Alan Turing, matemático, cientista da computação e criptologista da primeira metade do século XX.
            O roteiro dessa cinebiografia apresenta uma progressão de eventos muito peculiar, como uma retrospectiva de alguém meditando sobre a vida. O filme acontece em três períodos: na juventude de Turing, no seu trabalho durante a guerra e pouco antes de seu suicídio, em 1954. Nas tramas das idas e vindas da história, somos inseridos na paulatina formação da personalidade e do personagem que Alan Turing será na década de 40, momento em que, silenciosamente, ele se torna uma peça central e invisível no combate dos Aliados aos Nazistas.
            No coração da trama, temos que durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe de intelectuais de elite com o objetivo quebrar Enigma, uma poderosa máquina desenvolvida pela comissão de tecnologia dos nazistas a fim de codificar mensagens que só poderiam ser entendidas por quem possuísse o código chave. Na época, acreditava-se que o sistema de codificação era impossível de ser quebrado.
            Alan Turing (Benedict Cumberbatch), então com 27 anos, será aceito nesse seleto grupo de intelectuais. Entretanto, divergindo de seus companheiros e das autoridades, Alan convence-se de que seria humanamente impossível realizar a decodificação de Enigma, uma vez que ela geraria milhões de possibilidades a serem testadas no espaço de apenas 18 horas, antes de sua reconfiguração diária. Desse modo, o jovem matemático idealiza uma maquina que pudesse combater a tecnologia nazista, desenvolvendo, assim, o que posteriormente seria chamado de “máquina de Turing” e que antecederia aos computadores que temos hoje em dia.
            A máquina desenvolvida por Alan consegue quebrar os códigos de Enigma, o que, segundo os historiadores, teria encurtado a guerra em, pelo menos, dois anos, além de servir de material teórico para o desenvolvimento da computação contemporânea.
            À medida que fluxo de informações do filme vai seguindo seu rumo, algumas realidades humanas são colocadas em xeque, como o papel social da mulher e sua capacidade de atuar no mundo em pé de igualdade com os homens, superando-os em certos aspectos. Essa temática é inserida pela personagem Joan Clarke (Keira Knightley), matemática inglesa e única mulher pertencente ao grupo de elite criado pela inteligência britânica. Isso é contraposto por um conservadorismo estéril e opressor, fundado em um falso moralismo que apenas sufoca a genialidade do que é diferente.
            Talvez essa seja a grande discussão filosófica por detrás dos conflitos existências que o filme apresenta. A diferença é vista, em vários momentos da trama, como algo negativo, não normal.
            Em uma cena linda, na casa de Turing, Joan questiona o que seja a normalidade e afirma que não foi a normalidade que triunfou na guerra, mas a singularidade de um homem brilhante intelectualmente e que tem uma infinidade de defeitos, quase que caracterizando e re-propondo a figura do herói, não o modelo perfeito e sem defeito, mas o que realiza o bem pelo desejo do bem.
            A homossexualidade de Turing é apresentada na trama como sua anormalidade e, por isso, crime que o levará a humilhação e ao esquecimento por mais de 50 anos. Contudo, o longa de 2014 reforça a idéia de que normalidade não passa de “estar de acordo com as normas vigentes” e que não há nada mais insano que esperar de um fluxo normativo algo novo. É por causa de cada uma das singularidades de Alan Turing que essa resenha está sendo redigida em um computador e que estará disponível na internet. Podemos fazer muitos elogios ao conceito de “normal”, entretanto, devemos nos recordar que para os nazistas, era “normal” o que eles defendiam, estava nas normas. É muita pretensão humana tentar reduzir à uma normalidade, isto é, à normas paradigmáticas a condição humana que, em sua natureza, é singularidade e alteridade.
           O Jogo da Imitação revela o quanto cada vida humana é singular e como é essa singularidade assumida e decida em ser quem é que faz com que os trilhos da história jamais parem, ainda que nossos nomes não sejam os mais famosos. Essa imagem é plástica na fotografia em tons frios presente em  todo o filme e na celebração bela e sutil que o encerra, mostrando que, no fim, as pessoas  de quem menos esperamos são as que fazem as magníficas coisas que jamais poderíamos imaginar.



Título: O Jogo da Imitação
direção: Morten Tyldum;
roteiro: Graham Moore (baseado no livro Alan Turing: the enigma, de Andrew Hodges);
elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Allen Leech, Matthew Beard, Mark Strong, Charles Dance, Rory Kinnear
ano: 2014; duração: 114 minutos; país: Estados Unidos, Reino Unido;
gênero: drama Crítica: oito indicações ao Oscar 2015.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Escolhas


Um grande místico estava morrendo. Ele chamou seu principal discípulo. O discípulo ficou muito feliz ao ver que seu mestre o chamava, pois ele havia sido escolhido entre uma multidão de pessoas. Provavelmente o mestre iria transmitir algum grande segredo que não havia contado para ninguém até agora. “Esta é a forma pela qual ele está me escolhendo como seu sucessor!”, pensou o discípulo, enquanto se aproximava.
O místico disse: “Tenho apenas uma coisa a lhe dizer. Eu não fui capaz de ouvir meu mestre, que me disse esta mesma coisa ao morrer. Eu era tolo e não ouvi, nem mesmo pude entender o que ele queria dizer. Mas estou lhe falando, com toda minha experiência, que ele está certo, apesar de eu ter achado absurdo quando ele me contou.”
O discípulo perguntou: “O que é? Por favor, me conte! Tentarei seguir cada uma de suas palavras”.
O mestre então disse: “É algo muito simples: nunca, em momento algum de sua vida, tenha um gato em sua casa!” E antes que o discípulo pudesse perguntar por que, o mestre morreu!
Agora ele se sentia desorientado — que frase idiota! E a quem ele iria perguntar o que aquilo queria dizer? Foi procurar as pessoas mais velhas do vilarejo. “Há algum sentido nessa mensagem? Deve haver algum sentido misterioso oculto aqui!” Um dos anciãos falou: “Sim, eu sei por que o mestre de seu mestre disse o mesmo para ele: ‘Nunca, jamais, tenha um gato em sua casa’. Mas ele não ouviu. Eu sei toda a história”.
O discípulo pediu que o ancião lhe contasse tudo para que ele pudesse entender o significado do que o mestre lhe dissera. O ancião riu. Disse: “É algo muito simples, não há nada de absurdo aí. O mestre de seu mestre deixou para ele uma grande mensagem, mas seu mestre nunca se perguntou: ‘Qual o sentido disso?’ Ao menos você foi inteligente o bastante para indagar a respeito.
Seu mestre era jovem quando essa mensagem lhe foi transmitida. Ele costumava viver na floresta e possuía apenas duas roupas, nada mais. E o pior é que freqüentemente suas roupas eram destruídas pelos ratos que entravam em sua casa, e ele era obrigado a pedir novas peças às pessoas do vilarejo.
Um dia, um habitante do vilarejo disse: ‘Por que você não tem um gato? Se você tiver um gato, ele comerá os ratos e não haverá problemas. Do contrário, como nós, que somos pessoas pobres, faremos para lhe dar roupas novas todos os meses?’ Parecia bastante lógico, então ele pediu que alguém lhe desse um gato. Levou o gato para casa, mas aí começaram os problemas. O gato obviamente salvou as roupas, mas o gato precisava de leite, porque depois que ele comeu os ratos não havia mais o que comer.
E o pobre homem não podia meditar, porque o gato estava sempre miando e gemendo e dando voltas a seu redor.Ele retornou ao vilarejo e falou com algumas pessoas, que lhe disseram: ‘Esta é uma situação difícil. Agora teremos que lhe fornecer leite diariamente. Em vez disso, podemos lhe dar uma vaca. Assim a situação estará resolvida, você fica com a vaca. Você pode beber o leite e seu gato também. Assim você também não precisará mais nos pedir comida diariamente.
A idéia parecia ótima. Ele levou a vaca… e o mundo começou. É assim que o mundo começa. A vaca precisa de grama, e as pessoas disseram: ‘No próximo feriado, nós limparemos uma área na floresta e prepararemos a terra. Você irá plantar um pouco de trigo e algumas outras coisas, e deixará uma parte para a grama.’ E os habitantes do vilarejo fizeram o que haviam prometido: limparam a floresta, araram o solo, plantaram trigo. Mas agora havia outro problema: era necessário irrigar a terra, cuidar da plantação. E o pobre homem gastava todo o seu dia com isso. Não havia mais tempo para ler as escrituras, nem para meditar.
Mais uma vez ele retornou ao vilarejo e disse: ‘Meus problemas só estão piorando! Agora o problema é que não há mais tempo para meditar!’
Eles responderam: ‘Espere um pouco. Uma mulher acaba de ficar viúva, ela é jovem e temos medo que ela seja uma tentação para os jovens de nosso vilarejo. Por favor, leve-a com você. Ela é saudável, pode tomar conta de sua terra, dá vaca, do gato, e irá preparar sua comida. Ela também é muito religiosa. E não se preocupe, ela não irá perturbá-lo.”
Assim as coisas se encaminharam para sua conclusão lógica. Veja o quanto o homem já havia se afastado de seu caminho desde que recebera o gato...
A mulher foi morar com ele e cuidar dele. Durante alguns dias, ele se sentiu muito feliz. Ela massageava seus pés e... aos poucos o que tinha que acontecer aconteceu: eles se casaram. E quando você se casa, na índia, tem ao menos uns doze filhos. No mínimo! Então toda a meditação se foi.
Ele se lembrou disso apenas quando estava morrendo. Lembrou-se outra vez que, quando seu mestre estava morrendo, havia dito a ele para tomar cuidado com os gatos. Foi por isso que ele lhe disse isso. “Agora é sua vez de tomar cuidado com os gatos. Basta um pequeno passo na direção errada e você estará seguindo o caminho errado. (Osho)
A vida é assim: toda escolha que fazemos, a menor delas, geram ondas e ondas de repercussão por toda a nossa existência. Viver é exercer a liberdade, é fazer-se em cada escolha que realizamos, é existir, ou seja, lançar-se no projeto “Eu”.
Muitas vezes, nos iludimos que nossos atos são isolados, mas cada escolha revela a infinidade possível da vida humana. Cada sim que damos encerra uma infinidade de nãos que estamos afirmando com nosso sim. Desse modo entendo a angustia sartreana de ser um escravo da liberdade.

Escolher implica sempre um drama em primeira pessoa. Toda escolha é irrevogável, é uma sentença eterna, porque o tempo não volta e a vida não para. Não é possível, absolutamente, recomeçar. Estamos sempre caminhando para frente. Essa percepção gera um certo terror e uma forte pressão pelo peso que cada uma das nossas escolhas encerra: somos os únicos responsáveis pela felicidade e sucesso de nossas vidas!