sexta-feira, 28 de abril de 2017

Totus tuus


Entre os imensos frutos de revigoração do fervor que a Efusão do Espírito Santo tem gerado entre nós, temos observado um que é especialíssimo por se referir à devoção a Nossa Senhora: o mesmo Espírito Santo que gerou Jesus no seio de Maria, tem inspirado cada vez mais os batizados a assumir a filiação a esta Mãe Santíssima, que nos foi entregue por seu Filho ao pé da cruz. Nós a assumimos como Mãe e temos renascido espiritualmente dela.
Um grande sinal desta entrega é o aumento significativo da prática tão antiga e nova da consagração total a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, ensinada por São Luís Maria Grignion de Monfort. O que posso testemunhar acerca desta consagração, é que tem sido grande fonte de libertação interior e de conversão da minha vida a Jesus Cristo.
Parece algo contraditório, mas o que se comprova na prática é que este ato de consagração, através do qual clamamos a Maria que nos apresente a Jesus na qualidade de escravos, entregando à sua administração todos os possíveis méritos de nossos atos e orações, traz imensos frutos de libertação para nossa vida. Como pode isto acontecer?
A graça
Sabemos que a graça é uma ação misteriosa de Deus em nossa vida e, portanto, ultrapassa o raciocínio humano, de modo que seria inútil tentar explicar inteiramente aqui este ato de fé, que é mistério para ser aceito e vivido. Mas em respeito à nossa humanidade, Deus, cheio de misericórdia – através das Escrituras e do ensinamento da Igreja – se curva sobre nós para tentar nos “explicar” o inexplicável.
Enquanto a imensa graça deste ato de consagração tem arrebatado imediatamente a uns, que fazem-na sem nada perguntar, outros querem ardentemente fazê-lo, mas surgem no seu coração certos temores, especialmente no que se refere ao seu papel intercessor: “Se fizer este ato de consagração, não poderei mais interceder especificamente por aqueles que me pedem orações? Não poderei oferecer por eles atos de sacrifício? Estarei me tornando escravo de Nossa Senhora ou de seu Filho Jesus? Entregarei meus méritos a Nossa Senhora ou a Jesus?”
Para que não existam mais esses temores, penso que seria importante recordar uma Palavra da Carta de São Paulo aos Coríntios acerca da criatura humana que precisamos encarar e aceitar: “Que tens que não hajas recebido?” (1Cor 4,7b).
Na realidade, tudo o que possamos ser, ter ou fazer é puro dom de Deus para nós. Consagrar os frutos de nossos méritos a Jesus é entrar na verdade da nossa relação com Ele: Deus é nosso Pai e nada temos, somos ou podemos fazer sem que Ele nos conceda. Portanto, nossos pretensos méritos são como “moedinhas” que Ele mesmo coloca em nossos “bolsos” para comprarmos um presente para Ele.
Comunhão dos Santos
Outro importante instrumento de compreensão do ato de consagração a Jesus por Maria é a meditação no mistério da Comunhão dos Santos: uma vez que todos os batizados formam um só “corpo” espiritual, cuja “cabeça” é Cristo, o bem de Cristo é comunicado a nós, e todo bem que recebemos dele é comunicado entre nós como a seiva é comunicada a todos os ramos de uma árvore. Como então pretendermos dominar este processo “determinando” a Deus o bem que Ele deve fazer a esta ou àquela pessoa através de nós?
É claro que devolver a Deus este direito que já é dele não significa sermos impedidos de interceder por aqueles que nos pedem orações. Mas significa deixar que Deus tome inteiramente em suas mãos os resultados de nossos atos e orações, e o faça pelas mãos daquela que foi escolhida para que Jesus, fonte de toda graça, viesse habitar em nós e nos dar tudo o que somos, temos ou fazemos. Maria é a porta por onde recebemos Jesus e toda graça; é também a porta por onde devolvemos a Jesus o direito sobre tudo o que temos, somos e fazemos.
Consagrar-nos a Jesus pelas mãos de Maria não é um favor que fazemos a Jesus, nem um sacrifício, mas uma grande bênção, um imenso dom, uma profunda alegria, e a restauração da consciência de uma verdade fundamental da nossa vida: somos dele, somos portanto de sua e nossa Mãe, Maria!
Na vida
Gostaria também de partilhar aqui um outro aspecto do ato de consagração a Jesus pelas mãos de Maria que toca profundamente o meu coração: o aspecto vivencial. Como São Luís de Monfort mesmo diz no seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, a entrega total a Maria é uma perfeita renovação das promessas do nosso Batismo. Pelo Batismo, renunciamos a Satanás e a compactuar com suas obras, renunciamos ao pecado e a fazer prevalecer a nós mesmos. Na entrega total a Maria, renovamos esta renúncia e ainda damos expressamente a Nosso Senhor, pelas mãos dela, o valor que Deus quiser dar às nossas ações e orações. Jesus se deu inteiramente a nós e o quis fazê-lo pelas mãos de Nossa Senhora, e agora nos devolvemos inteiramente a Ele também do mesmo modo: pelas mãos de Nossa Senhora.
Maria é a porta do céu, a porta das graças que circulam no corpo da Igreja. No entanto, durante a vida, Maria permaneceu muito oculta. A sua humildade foi tão profunda, que não teve na terra atrativo mais poderoso nem mais contínuo que o do escondimento para que só Deus a conhecesse. São Luís Maria de Monfort diz que o próprio Filho quis escondê-la durante sua vida, e em certa ocasião chegou a tratá-la como uma estranha para favorecer sua humildade, embora no seu coração a amasse mais do que a todos os anjos e a todos os homens.
Portanto, a nossa entrega a Maria precisa se efetivar na nossa vida através de atos concretos de humildade e aceitação de toda humilhação. Depois de nos consagrar a Jesus por intermédio dela, torna-se um absurdo ainda querermos fazer prevalecer nossa pessoa, nossas idéias, nossa vontade em qualquer situação da nossa vida diária. Daí o perigo de nos tornarmos pessoas consagradas a Nossa Senhora, muitas vezes ostentando um belo anel no dedo, sem nos lembrar que escolhemos livremente estar no lugar onde ela esteve com seu Filho Jesus enquanto viveram nesta terra: eles escolheram o último lugar, o lugar de servos, renunciando a todo direito de ditar normas ou prevalecer sua vontade diante de Deus.
Se estamos dispostos a abraçar esta grande graça de estar no lugar escolhido por Jesus e Maria nesta terra, vale a pena nos consagrar a Nossa Senhora. Mas se ainda desejamos conservar algum direito para nós nesta vida, nos preparemos melhor para viver esta devoção, porque ela envolverá desde as pequenas às grandes situações que encontraremos.
Esta escolha do último lugar, decorrente da consagração a Jesus por intermédio de Maria, vai muito além de um lugar físico ou de uma função no serviço da Igreja, que aos olhos de alguns pode parecer significar grandeza ou pequenez. Trata-se do espírito de pequenez, que o Espírito da verdade nos ensina a viver, conforme Cristo mesmo esclareceu no seu diálogo com a mãe dos filhos de Zebedeu (cf. Mt 20,20-28). Aquela mãe, na sua ingenuidade, pediu que Jesus colocasse seus filhos um à direita e o outro à esquerda dele no Reino de Deus, e Ele, após lhes perguntar se estariam dispostos a beber da “taça” da entrega total de sua vida, declarou que somente ao Pai caberia concedê-lo. E aproveitou a ocasião para ensinar aos seus discípulos: “Como sabeis, os chefes das nações as mantêm sob seu poder, e os grandes, sob seus domínios. Não deve ser assim entre vós. Pelo contrário, se alguém quer ser grande entre vós, seja vosso servo, e se alguém quer ser o primeiro entre vós, seja o vosso escravo. Assim é que o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão” (cf. Mt 20,25-28).
Através daquela por quem veio a nós o Servo dos servos e foi a primeira a servir a Deus sem reserva, com a entrega total de sua vida, podemos nos consagrar, segundo a devoção ensinada por São Luís de Montfort, sabendo estar renunciando a todo pretenso direito, não só na outra vida, mas desde já, em cada situação do nosso dia-a-dia.
Sabendo disto, como pode alguém que se consagrou a Jesus pelas mãos de Maria ainda exigir direitos, consolos, regalias, reparação de ofensas recebidas, considerações, atos de gratidão ou prevalência da sua opinião diante de alguém? Tudo isto, até somos capazes de sentir, porque somos humanos e tais desejos se levantam dentro de nós. Mas um consagrado a Jesus por Maria rejeita tais pensamentos e até os confessa se neles consentiu ou agiu.
Queridos consagrados a Jesus por Maria, submetamos a cada dia todos os nossos desejos aos de Jesus e Maria, de modo que se os nossos não forem conforme os deles, possamos deixar que sejam aniquilados, e com eles todo egoísmo que nos separa de Deus, para chegarmos à união completa com Ele. E que o Senhor conceda mais e mais aos corações dos batizados o desejo de consagrar-se assim para sempre, pelas mãos de nossa querida Mãe!

Resenha: Thirteen reasons why


Em #13ReasonsWhy, um tema delicado e um gênero em ascensão na literatura são a base para uma série que conjuga uma trama necessária, expõe com ênfase a necessidade do #diálogo e mantém a vertente de seu produto original. Baseado no livro homônimo lançado em 2007 por Jay Acher, a série se desenvolve a partir do suicídio da jovem Hannah Baker e de um conjunto de fitas gravadas que justificam as razões para ter cometido esse ato.
O formato do #gênero se reflete na série 13 Reasons Why. Trata-se de um produto claramente voltado ao público juvenil mas que consegue ultrapassar qualquer faixa etária. A leveza da narrativa, do roteiro, a qualidade da trilha sonora, bem como o destaque, nem que seja em uma única cena, a todos os personagens centrais, é uma das características fundamentais da série. A maioria dos #adolescentes em cena são expressivos, calorosos, e com falas de impacto que, por um lado, reforçam a ficção, por outro cria um ambiente mais familiar para dialogar sobre assuntos espinhosos.
O exagero é fundamental para causar contraponto. As cores são mais brilhantes nos momentos alegres e se adensam nos temas sérios. Como os narradores sempre são adolescentes, eventuais distorções ficcionais se tornam mais coerentes. Receber um conjunto de fitas cassete testamentais de uma colega que se suicidou não causaria pânico em um adulto, no máximo certo estranhamento. Um jovem, por outro lado, manteria segredo e seguiria o pedido da fita: ouvi-las e passar a outro envolvido nas ações.
A cada episódio, um dos lados das fitas é apresentado ao público. As personagens são construídas pela perspectiva de Hannah mas a trama é capaz de inserir certa densidade ambígua na maioria dos jovens. Apesar do ambiente agressivo, da temática do #bullying em uma escola que aparentemente desconhece as diversas violências sofrida pelos jovens, há sempre um momento em cena que cada adolescente ganha um pouco mais de personalidade, carregando também sua gama de dores. Em outras palavras, salvo um personagem que se desenvolve como o vilão principal da trama, todos os outros jovens estão no equilibro entre boas e más ações. Parte de seus erros estão ligados a falta de maturidade, falta de um acompanhamento adulto em uma fase da vida em que pressões internas e externas são naturais, perceptíveis e, muitas vezes, agressivas.
Dentre esses diversos personagens entre o bem e o mal, o jovem Clay é o mais comum deles, o garoto equilibrado e com bons valores que julga os atos com mais propriedade do que os seus colegas. Nada o faz diferente, exceto talvez a própria noção de consequência, uma maturidade que o transforma em um destaque na trama e, não a toa, o catalisador da ação em resolver os problemas que Hannah não conseguiu em vida. É através de suas reações que o público se identifica, descobrindo que entre um universo aparentemente belo do colégio, existia um caos, tanto o caótico interior da garota Hannah, parcialmente deslocada do seu ambiente, como cada um de seus colegas presentes nas fitas, vivendo conflitos internos.
Como a trama explora poucas nuances, tudo é narrado as claras. Há um momento em que Hannah menciona o quanto o julgamento é prejudicial a outro, afinal, todos carregam problemas dentro de si. A série demonstra com qualidade tal afirmativa, nenhum adolescente em cena é totalmente ruim, mas vive sob a pressão natural da idade e certo senso de inconsequência. O único que não ganha equilibrio é o vilão Bryce Waler, propositadamente construído sem qualidades para causar impacto, em uma dos atos mais agressivos contra Hannah Baker.
Ainda que o enfoque não perca as características fundamentais do romance em que se baseou, a produção fez uma escolha certa ao enfocar o drama dos pais da garota ao lidar com a perda, bem como evitam um drama excessivo no episódio final que apresenta corajosamente a cena de suicídio da personagem. Uma cena densa, explícita, em que o público compartilha o momento de hesitação e agonia de Hannah, em que fica claro que o suicídio não é uma escolha pela morte, mas a decisão de não mais assumir está vida como é dado, um momento de terror e medo diante da única escolha que nunca foi uma escolha.
Outro aspecto forte  é que a série é narrada pela própria Hannah, ou seja, todo o sofrimento assistido parte de seu desequilíbrio emocional, sendo natural que a propensão pelo desastre seja maior.
Apesar das críticas que apontam que no enredo o suicídio é apresentado como  uma  opção entre as demais, partindo da  visão de Hannah, o li como uma ação difícil por essência, explorada por diversas ciências e filosofias e nunca explicada de fato, não com uma justificativa definitiva.
E é nesta riqueza de possibilidades que se pode justificar a reação de cada um dos amigos de Hannah ao ouvir suas fitas. Não faltam dúvidas: somos responsáveis pelos outros? Podemos impedir que outro faça esta ou aquela atitude?
Chama a atenção, entre a poesia criada pela fotografia e roteiro dá série, o personagem Tony, tido como o guardião da existência de Hannah e como um jovem sábio. Ele é a personagem mais esférica da trama e simboliza a superação de uma série de preconceitos: ele é latino, pobre, gay, baixo, dirige um carro muito antigo... E são essas características que, assumidas e aceitas, fazem com que sua singularidade apareça como um sinal de razoabilidade no meio de toda a tensão da série!
Bem, fica a indicação para que seja assistida em uma perspectiva de assumir a responsabilidade ética que temos no desenvolvimento existencial de cada outro que passa pela nossa história!

domingo, 5 de março de 2017

O EVANGELHO DAS TENTAÇÕES DE JESUS NA VISADA DE SÃO MATEUS: aspectos para uma sadia interpretação do texto.

1.   
     
   INTRODUÇÃO

O presente artigo se propõe a analisar o texto de Mt 4, 1-11, conhecido como as tentações de Jesus. Partindo de análise de texto e dos aspectos teológicos que o tecem, se pretende fazer uma reflexão de como tal fragmento da Escritura pode contribuir para vida espiritual, moral e social de todo aquele que crê em Jesus Cristo.
Deve-se estar atento para o fato de que esse é um estudo exegético-pastoral, o que implica sua submissão à interpretação Fiel do Magistério e serve de auxílio para a melhor compreensão do texto bíblico por parte dos crentes.
O texto deste artigo não foi revisado e nem relido pelo autor até a data de sua publicação, quer por uma demanda de tempo quer pela crença de que o presente texto é uma provocação para a partilha ao redor da Palavra. Disso resulta que o caso algum momento do texto não tenha sido claro ou contenha erro, seja notificado ao autor, que com alegria o melhorará em vista de melhor servir ao Povo de Deus.


2.      MOLDURA TEOLÓGICA POSTA POR SÃO MATEUS
A passagem de São Mateus 4, 1 -11 introduz a narração do evento das chamadas “tentações” com a afirmação de que o Espírito conduziu Jesus ao deserto para aí ser tentado.  É interessante notar o desconcerto que tal versículo causa na mentalidade hodierna, pois quem dá a direção ao deserto com o objetivo de submeter o Conduzido a uma provação é o Espírito Santo, coisa que soa “estranha” ao entendimento crente da ação do Espírito, que tantas vezes é condicionado ou reduzido aos eventos unicamente extraordinários de intervenção da graça. Contudo, esta afirmação é como que uma preciosa chave para que possamos nos aproximar do texto de Mateus e colher dele frutos mais abundantes.
            Não se pode esquecer o público para o qual o Evangelista escreve o seu texto, que é um grupo de pessoas que são provenientes do judaísmo. Para este povo, o Espírito do Senhor é quem conduz os profetas em sua missão[1]. Sendo assim, devemos entender, a partir deste ponto do Evangelho, que o que Jesus diz deve ser escutado porque é palavra de Deus, Ele é o Profeta que Deus enviou ao seu povo, Aquele que é conduzido pelo Espírito e que, no deixar-se conduzir, é, ao mesmo tempo, profeta e profecia.
            Outra palavra preciosa que vai descortinando as riquezas do texto de Mateus é o vocábulo “deserto”. Jesus é conduzido ao deserto em uma apresentação que remete diretamente a imagem do povo de Israel saído do Egito, sob a guia de Moisés. Essa aproximação é confirmada pelo paralelo que é estabelecido pelo número 40: Israel terá seu retiro por 40 anos, Jesus, por 40 dias[2].
            Esse paralelismo é fundamental para entendermos que em Jesus se inaugura uma nova etapa da Revelação: o povo de Israel, passado o Mar Vermelho e guiado por Moisés, é posto a prova inúmeras vezes no deserto; Jesus, passado pelas águas do batismo de João e guiado pelo Espírito, é posto a prova, também, inúmeras vezes no deserto. Porém, o texto de Mateus revela que a superioridade de Jesus se dá na vitória onde anteriormente o homem havia caído.
            De fato, basta recordarmos que o povo de Israel falhou várias vezes no seu caminho pelo deserto; Moisés falhou  uma vez, mas Jesus supera todas as provas que lhe vão sendo apresentadas. Mateus cria um quadro intenso e dramático entre o projeto salvífico do Pai, em que Jesus redime em si mesmo, pela obediência e pelo centrar-se no querer do Pai, a desobediência original de Adão e Eva, e o antiprojeto do Inimigo, Satanás, o adversário e opositor, que anseia em conduzir o homem ao fechamento a Deus e ao ensimesmamento existencial, prelúdio nesta vida daquilo que será a eternidade no inferno.
            Outro vocábulo que merece nossa atenção é a expressão “tentação”. Na verdade, deve-se evitar chamar os eventos apresentados aqui de tentações, pois como foi apresentado pela leitura a partir do paralelo com a peregrinação de Israel no deserto, seria muito mais preciso o termo provação. As realidades apresentadas a Jesus por Satanás fazem memória das tentações de Adão no paraíso e de Israel no deserto. Assim, pretende-se que o leitor entenda que Jesus de Nazaré é o Novo Adão que permanece fiel ali onde o primeiro Adão sucumbiu à tentação do demônio. Jesus é aquele que cumpre com perfeição a vocação de Israel, totalmente obediente à Vontade do Pai.
            Já o segundo Concílio Ecumênico de Constantinopla[3], em 553 d. C., havia deixado essa realidade clara: Jesus é um das Três pessoas divinas e, portanto, não seria capaz de pecar em período algum de sua vida terrena[4], o que fica explícito no texto quando lemos que todas as sugestões contrárias ao plano do Pai partem de Satanás em forma de sugestões, que nada tinham a ver com os conflitos internos e os desejos desordenados da natureza humana decaída. É nesse sentido que lemos esse fragmento do Evangelho e bradamos que Jesus venceu o tentador por nós, “pois não temos um sumo sacerdote incapaz de compadecer-se de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós, exceto no pecado” (Hb 4,15).
            Esta solidariedade de Jesus com os pecadores, este seu identificar conosco em tudo, exceto no pecado, já fora apresentado pelo evangelista na narração do Batismo, que antecede imediatamente ao relato das “tentações”. Essa seqüência de eventos faz memória da própria história de Israel que tendo passado pelas águas do Mar Vermelho, é libertado da escravidão do Egito e é submetido à prova dos 40 anos no deserto. De modo paralelo, Jesus é apresentado como Aquele que passa pela água do Batismo de João, anunciando a libertação do cativeiro do pecado e é submetido à prova por 40 dias.
            O Batismo de João não é um Sacramento e menos ainda deve ser entendido em Jesus como um processo de conversão ou libertação do pecado. Como dito, este evento tem um caráter de anuncio da obra messiânica de Jesus e, por isso mesmo, ele é singular em relação às outras abluções praticadas em Israel. Diferente destas, ele se caracteriza como o concreto cumprimento de uma mudança que precisa determinar de um modo novo e para sempre toda a vida do sujeito, que deve abrir-se a um novo modo de pensar e de agir[5]: “Arrependei-vos, pois está próximo o reinado de Deus” (Mt 3,2).
            O que se deve notar na construção da narrativa é que Jesus de Nazaré vem para ser batizado por João. Isto é, entra na fila dos pecadores que desejavam se desvencilhar de suas vidas velhas para se comprometerem com uma nova vida, orientada pela espera messiânica pregada por João. Aqui parece haver uma contradição: como Jesus pode fazer isso? Ele teria algum pecado a confessar?
            Para respondermos a esta pergunta, precisamos voltar ao texto. São Mateus nos diz que ao ver Jesus, João lhe diz: “Eu é que devia ser batizado por Ti e Tu vens ter comigo?” (Mt 3,14) Diante desta tentativa de esquivar-se que João realiza, Jesus lhe responde: “Deixa por agora, pois convém que se cumpra toda a justiça.” (Mt 3,15) E então João permitiu que Jesus fosse batizado.
            A resposta de Jesus é um ilimitado sim a Vontade de Deus, à “justiça”, é um submisso acolhimento da obediência. É uma expressão amorosa de sua solidariedade com os homens pecadores que pedem perdão a Deus e suplicam uma nova Vida. Ao descer às águas do Jordão para ser batizado com os pecadores, Jesus assume sobre si, como o Cordeiro de Deus, o peso da culpa e do pecado de toda a humanidade e levou-a para o Jordão abaixo, num símbolo de morte no ato de mergulhar nas águas que faziam memória do dilúvio devastador e do Mar que afogou os egípcios, mas também de vida que está prestes a nascer; é uma antecipação simbólica daquilo que Ele mesmo realizaria na Cruz e na Ressurreição, é sinal de sua solidariedade com cada homem ferido e angustiado pelo pecado.
            É com essa visão da solidariedade de Jesus com os pecadores, posta pelas molduras teológicas de São Mateus, que vamos nos aprofundar no relato das tentações de Jesus. Logo após ser batizado, o Espírito que desceu sobre Ele o conduz ao deserto para ser provado em um tempo de recolhimento que antecede sua ação, sua missão. Mas já esse recolhimento é revelador de como Jesus entende e vive sua missão: Ele desce aos perigos do homem, às suas periferias existenciais, pois só assim o homem caído pode ser reerguido. Jesus aceita entrar no drama de nossa existência, atravessá-lo até o seu extremo, descer ao nosso inferno, para nos resgatar nos colocando sobre seus ombros e nos levando de volta para o Pai. O relato das Provações de Jesus, como o do Batismo, é uma antecipação daquilo que será o evento da Cruz.

3.      A TEOLOGIA DAS PROVAÇÕES DE JESUS
São Mateus narra três tentações de Jesus nas quais podemos ver a luta por causa de sua missão messiânica. Além disso, cada uma delas nos leva a reflexão sobre o sentido da vida humana enquanto tal.
O eixo que articula todas propostas de Satanás é o deixar a Deus de lado; subverter a ordem da relação com Ele, pondo-nos em primazia; é construir os dias e lidar com as preocupações, construir a sociedade humana de modo autônomo, confiados na política e nas realidade materiais. O Papa Bento XVI[6] fez  uma brilhante apresentação de contemporaneidade dessas tentações no percurso histórico da sociedade e revela que essa é sempre uma tentação presente. Deixar Deus de lado na construção da esperança humana é sempre uma proposta que chega até nós vinda do Tentador, proposta feita desde Adão, mas que ressoa em nossos ouvidos ainda. O pontífice conclui sua reflexão dizendo:
No que diz respeito aos dois grandes temas « razão » e « liberdade », aqui é possível apenas acenar às questões relacionadas com eles. Sem dúvida, a razão é o grande dom de Deus ao homem, e a vitória da razão sobre a irracionalidade é também um objetivo da fé cristã. Mas, quando é que a razão domina verdadeiramente? Quando se separou de Deus? Quando ficou cega a Deus? A razão inteira reduz-se à razão do poder e do fazer? Se o progresso, para ser digno deste nome necessita do crescimento moral da humanidade, então a razão do poder e do fazer deve de igual modo urgentemente ser integrada mediante a abertura da razão às forças salvíficas da fé, ao discernimento entre o bem e o mal. Somente assim é que se torna uma razão verdadeiramente humana. Torna-se humana apenas se for capaz de indicar o caminho à vontade, e só é capaz disso se olhar para além de si própria. Caso contrário, a situação do homem, devido à discrepância entre a capacidade material e a falta de juízo do coração, torna-se uma ameaça para ele e para a criação. Por isso, falando de liberdade, é preciso recordar que a liberdade humana requer sempre um concurso de várias liberdades. Este concurso, porém, não se pode efetuar se não for determinado por um critério intrínseco comum de ponderação, que é fundamento e meta da nossa liberdade. Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança. Consideradas as mudanças da era moderna, a afirmação de S. Paulo, citada ao princípio (Ef 2,12), revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto, não há dúvida de que um « reino de Deus » realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no « fim perverso » de todas as coisas, descrito por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, também não há dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, não basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso, a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria: razão e fé precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira natureza e missão. (Spe Salvi, 23)
            Outra característica interessante nas proposições do Tentador é que não há um convite para o mal, não de modo direto e claro. É sempre uma insinuação de inversão, de abandonar a “ilusão” que seria a vocação pessoal em vista do sucesso; a “ilusão” da confiança em Deus pela segurança em si mesmo; a “ilusão” da vivência da fé pelo poder e pela melhoria do mundo. No fundo, a questão presente é Deus, pois Ele é a questão fundamental que se levanta no centro de toda a existência humana.
            Uma outra confirmação dessa centralidade de Deus e da relação com Ele como central no mecanismo das tentações deriva das palavras do próprio Jesus. As respostas que o Senhor dá a cada uma das propostas do demônio são tiradas do Livro do Deuteronômio, dos capítulos 6 ao 8. Na ética que São Mateus vai apresentar ao longo de todo o seu Evangelho, esses capítulos estão sempre relacionados ao princípio fundamental de toda conduta moral dos seguidores de Jesus: o mandamento de realmente amar a Deus.
            De fato, toda conduta moral dos seguidores de Jesus precisa alicerçar-se no fato de que o crente fez uma experiência de Deus em Jesus e que por isso assume a novidade da vida no Espírito que lhe é doada em Cristo e por Ele. Sem a experiência real de ser amado por Deus e de amá-Lo em correspondência, a moral cristã seria um peso incapaz de dar sentido a vida humana por si mesma. É o fato de que a moral cristã parte de um relacionamento vivo com Deus Uno e Trino o que sustenta a vitalidade que as Leis morais comunicam.
            Tal constatação fica evidente quando tomamos o texto das tentações tendo diante dos olhos o trecho de Dt 6,5 que serve de base para as respostas de Jesus a cada uma das provocações do demônio, e que lemos “Portanto, amarás a IHWH teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força.” É a essa tríplice exigência de amor que Jesus corresponde em sua oferta ao Pai, no Espírito, e que é evidenciada na vitória sobre as insinuações do Inimigo.

3.1  A PRIMEIRA TENTAÇÃO
            A primeira tentação relaciona-se ao  não “amar a Deus de todo o coração”, isto é, não submeter os próprios desejos interiores à Vontade de Deus, elegendo para si um outro alimento que não o verdadeiro Maná que o Pai faz descer do céu na existência de cada fiel, isto é, sua Palavra-vocação.
            A fome mais profunda que a existência humana enfrente é a fome de sentido para o próprio ser, sentido esse que não pode ser dado por nós mesmos. É então que entendemos o papel central da vocação pessoal na existência: é ela quem abre nossos olhos para que entendamos o sentido dos nossos dias. Esse dom, comparado ao alimento, vem da bondade gratuita de Deus para os que aceitam atravessar o deserto, como o foi o Maná. Contudo, é justo aqui que a tentação se põe.
            Perceba-se que a fala do tentador se inicia com um condicional “se és filho de Deus...”, como que insinuando uma não realidade, uma possibilidade, uma dúvida. Claro que nenhuma dessas realidades em Jesus, mas todas elas na humanidade. Essa condicional é posta pelo tentador como um recurso de levar o homem ao desespero do desacreditar: Se ficho de Deus, por que sofro? Se filho de Deus, por que esse evento terrível se passa comigo? Se filho de Deus...
            A tentação inicia-se pelo desejo de afastar o coração da proximidade filial da confiança no Pai que conduz a vida dos seus filhos. É por isso que, nessa cena, a imagem do maná é fundamental, pois evoca a fidelidade de Deus que se sustenta nEle mesmo  e em nada mais, fidelidade de um Deus que dá o alimento para cada hoje, pois já isso é a promessa de que nunca nos desamparará.
            Com a proposta de fazer com que as pedras se transformassem em pão, Satanás pretendia que Jesus se identificasse com a idéia de messias que os judeus criaram: político, libertador da opressão dos dominadores e que traria prosperidade para todo o povo. Contudo, a missão que o Pai confiou a Jesus é o homem, não a política por si e em si, uma vez que é a conversão do coração humano para Deus que garantirá o bem-estar e a justiça para todos os homens da sociedade. Se hoje há pobreza e miséria, se há fome e violência é justamente porque o coração humano não está alimentado da Palavra de Deus.

3.2  A SEGUNDA TENTAÇÃO
            A segunda provação corresponde ao não “amar a Deus de toda a tua alma”, isto é, assumir que a própria existência é um chamado gratuito da misericórdia do Pai que preferiu o nosso ser-aqui ao não-ser.
            Nessa tentação, chama a atenção do leitor o fato de Satanás usar a Sagrada Escritura como pano de fundo para a tentação. Este aspecto, a exegese, é justamente o coração dessa tentação, pois por ela entendemos que o que está em jogo nesse momento é a concepção de Deus e, conseqüentemente, nossa relação com Ele.
            A proposta que o demônio faz é de circunscrever Deus ao âmbito do subjetivo, da necessidade do que a Ele se dirige. Uma inversão de papeis que caracterizará vários momentos da história, momentos esses em que o homem assumirá o papel de senhor, ao passo que Deus lhe deveria servir tal como um servo serve ao seu amo.
            Tal perspectiva teológica, nascida das interpretações modernas postas pela filosofia, se desdobrará fortemente no mundo cristão, chegando a roupagens contemporâneas profundamente perigosas, tais como a chamada Teologia da Libertação, a Teologia da Prosperidade e o cientificismo teológico. Segundo todas essas correntes, muito diversas em vários de seus aspectos e desdobramentos, não se deve mais falar do Deus da Bíblia, o Deus vivo, uma vez que somos nós quem falamos dEle e somos nós quem determinamos o que Ele pode fazer e como nós podemos ou devemos nos portar. Qualquer tentativa de nos aproximarmos do texto bíblico para o lermos na fé na qual foi escrito seria uma demonstração de imaturidade intelectual e fundamentalismo.
            O fato de fazer uso das Escrituras ou de titular-se academicamente não dão segurança absoluta para que se achegue ao Deus Revelado. É no Espírito da fé que o texto deve ser lido e interpretado, não no espírito egoísta e ensimesmado do homem moderno.
            A falsa interpretação do demônio pretende por Deus a prova, como que num jogo. Se Ele não se submete ao meu jogo que o tenta, então não deve ser Deus. Assim, é colocada diante de nós a grande questão de como o homem se põe diante de Deus, de como o encontramos e de como O podemos perder. Deus não é um brinquedo ou um objeto para os meus caprichos, mas antes, é o Senhor Soberano que não nos abandona nem mesmo quando tudo parece deserto e solidão.
            A vitória sobre esta tentação é convite sempre aberto a permanecer com o coração atento na escuta de Deus e de preferir seus caminhos aos nossos, sua vontade à nossa, mesmo quando essa vontade é nosso sacrifício, oferta e martírio. A certeza que deve mover o nosso coração é que Deus é poderoso o suficiente para colher o fruto de redenção daquilo que agora nos parece sofrimento. Basta fazer memora do evento da Cruz para entendermos que se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanece apenas grão, mas se morrer, assim produzirá muito fruto[7].

3.3  A TERCEIRA TENTAÇÃO
            A terceira e última tentação aparece como uma correspondência ao não “amar a Deus com toda a tua força”. Essa tentação é particularmente interessante por colocar um aspecto, no mínimo, traiçoeiro. De fato, o Messias é o Rei prometido pelo Pai às nações, mas Satanás lhe oferece o poder sobre os povos.
            Aqui entra em cena a verdade como critério. De fato, tanto Satanás feriu o coração humano com o pecado que podemos dizer que, em certa medida, ele tem algum poder sobre o mundo, pois conduz e propõe estruturas que permitem o pecado e que degradam a condição humana. O que o demônio pretende e possui é um falso poder, um arremedo de autoridade, que em nada contribui aos que a ele se submetem. Antes, a submissão ao seu poder constitui uma inversão da própria condição natural do homem. Isso fica claro quando lemos que a proposta é que se proste diante dele e que se lhe adore.
            O homem foi feito para Deus e para adorá-Lo. Nesse movimento de reconhecimento de Deus, o homem reconhece a si mesmo e se ordena em direção ao criado com harmonia e ordem. Suplantar a adoração a Deus propor-se um outro Deus  caracteriza uma profunda animalização do próprio homem. Isso é facilmente verificável na sociedade: quanto mais o home se ausenta de Deus, menos somos capazes de distinguir humanidade nas ações do homem.
            O Reinado de Jesus se expande pela conversão do coração a Deus e à sua verdade. Não é um plano de poder temporal, mas uma realidade de poder que se estende ao tempo e à história a partir da subjetividade do crente que vai comunicando os efeitos da graça redentora de Cristo aos meios seculares. Mas tudo isso só se dá quando a primazia absoluta de Deus é respeitada.

4.      CONCLUSÃO
A cena das tentações trás profundas referências veterotestamentárias de modo que o acontecimento vivenciado por Jesus e narrado por Mateus contrasta diretamente a desobediência de Adão e do povo de Israel com a perfeita obediência redentora de Jesus, o Novo Adão, Primogênito do Novo Israel do Pai.
O paralelo entre Israel e Jesus se dá pelas semelhanças literárias postas pela Divina Providência em ambos os fatos: tanto Israel e Jesus são chamados Filhos de Deus (Mt3,17 / Ex 4,22); ambas as tentações são precedidas por um batismo (Mt 3,13-17/ I Cor 10,1-5); Israel é posto aprova por 40 anos e Jesus por 40 dias e 40 noites; no deserto em que Israel falha por sua não confiança em Deus, Jesus vence a todas as tentações, aparecendo como aquele que ama a Deus com absoluta perfeição.
A vitória de Jesus serve de exemplo, modelo e motivação para a obediência e para o amor a Deus de todos os cristãos. A vida na terra é, também, uma provação no deserto para o povo de Deus que caminha para a pátria celeste. No percurso da existência, os fieis serão provados diversas vezes e em todas elas serão convidados por Deus a superarem o demônio, a carne e o mundo. Tal realidade visa dar centralidade a Deus na vida de todo aquele que crê. Contudo, o confronto não é nosso em primazia, mas de Deus conosco e em nós, pois é amparados pela graça de Cristo que devemos lutar para permanecer no centro da vontade de Deus.




[1] Ez 3,12; 11,1
[2] Dt 8,2.4 ; Nm 14,34.
[3] Cânon 12
[4] Tg 1,13; Jo 3,5
[5] Cf. Mc 1,5
[6] Spe Salvi, 16-23
[7] Jo 12,24

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Kant e a possibilidade do conhecer

O filósofo alemão Immanuel Kant responde à questão de como é possível o conhecimento afirmando o papel constitutivo de mundo pelo sujeito transcendental, isto é, o sujeito que possui as condições de possibilidade da experiência. O que equivale a responder: "o conhecimento é possível porque o homem possui faculdades que o tornam possível". Com isso, o filósofo passa a investigar a razão e seus limites, ao invés de investigar como deve ser o mundo para que se possa conhecê-lo, como a filosofia havia feito até então.
Mas quais são exatamente, segundo Kant, estas faculdades ou formas a priori no homem que o permitem conhecer a realidade ou, em outros termos, o que são essas tais condições de possibilidade da experiência?
Em Kant, há duas principais fontes de conhecimento no sujeito:
  • A sensibilidade, por meio da qual os objetos são dados na intuição.
  • O entendimento, por meio do qual os objetos são pensados nos conceitos.
Vejamos o que ele quer dizer com isso, começando pela intuição. Na primeira divisão da Crítica da Razão Pura, a "Doutrina Transcendental dos Elementos", a primeira parte é intitulada "Estética Transcendental" (estética, aqui, não diz respeito a uma teoria do gosto ou do belo, mas a uma teoria da sensibilidade). Nela, Kant define sensibilidade como o modo receptivo - passivo - pelo qual somos afetados pelos objetos, e intuição, a maneira direta de nos referirmos aos objetos.
Funciona assim: tenho uma multiplicidade de sensações dos objetos do mundo, como cor, cheiro, calor, textura, etc. Estas sensações são o que podemos chamar de matéria do fenômeno, ou seja, o conteúdo da experiência. Mas para que todas estas impressões tenham algum sentido e entrem no campo do cognoscível (daquilo que se pode conhecer), elas precisam, em primeiro lugar, serem colocadas em formas a priori da intuição, que são o espaço e o tempo.
Estas formas puras da intuição surgem antes de qualquer representação mental do objeto; antes que se possa pensar a palavra "cadeira", a cadeira deve ser apresentada, recebida, na forma a priori do espaço e do tempo. Este é o primeiro passo para que se possa conhecer algo.
Assim, apreendemos daqui duas coisas: primeiro, o conhecimento só é possível se os objetos da experiência forem dados no espaço e no tempo; e, segundo, espaço e tempo são propriedades subjetivas, isto é, atributos do sujeito e não do mundo (da coisa-em-si).

ESPAÇO E TEMPO:
Espaço é a forma do sentido externo; e tempo, do sentido interno. Isto é, os objetos externos se apresentam em uma forma espacial; e os internos, em uma forma temporal. Como Kant prova isso? Pense em uma cadeira em um espaço qualquer, por exemplo, em uma sala de aula vazia. Agora, mentalmente, retire esta cadeira da sala de aula. O que sobra? O espaço vazio. Agora tente fazer contrário, retirar o espaço vazio e deixar só a cadeira. Não dá, a menos que sua cadeira fique flutuando em uma dimensão extraterrena.
E o tempo? Ele é minha percepção interna. Só posso conceber a existência de um "eu" estando em relação a um passado e a um futuro. Só concebemos as coisas no tempo, em um antes, um agora e um depois. Voltemos ao exercício mental anterior: podemos eliminar a cadeira do tempo - ela foi destruída, não existe mais. Porém, não posso eliminar o tempo da cadeira - eu sempre a penso em uma duração, antes ou depois.
A conclusão é de que é impossível conhecer os objetos externos sem ordená-los em uma forma espacial - e de que nossa percepção interna destes mesmos objetos fica impossível sem uma forma temporal.
Além disso, espaço e tempo preexistem como faculdades do sujeito - e, portanto, são a priori e universais - quando eliminamos os objetos da experiência. Por isso, segundo Kant, espaço e tempo são atributos do sujeito e condições de possibilidade de qualquer experiência.

AS CATEGORIAS:
 Na segunda parte da "Doutrina Transcendental dos Elementos", a "Analítica Transcendental", Kant analisa os conceitos puros a priori do entendimento, pelos quais representamos o objeto.
Vamos rever o esquema do conhecimento, antes de avançar. Temos objetos no mundo, que só podemos conhecer como fenômenos, isto é, na medida em que aparecem para o sujeito. Fora do sujeito, como coisa-em-si, estão fora do alcance da razão.
Mas, para serem fenômenos, estas coisas precisam, antes de tudo, aparecer no espaço e tempo, que são faculdades do sujeito. Vejo uma árvore. Esta árvore eu vejo em suas cores e formas, que são as sensações deste objeto. Estas sensações são recebidas e organizadas pela intuição no espaço e no tempo. Esta é a primeira condição para o conhecimento.

O segundo momento, depois de o sujeito receber o objeto na intuição, na sensibilidade, pela faculdade do entendimento ele reunirá estas intuições em conceitos, como, por exemplo, "Árvore" ou "A árvore é verde". Esta é a segunda condição para o conhecimento.
Os conceitos básicos são chamados de categorias, que são representações que reúnem o múltiplo das intuições sensíveis. As categorias, em Kant, são 12:
1. Quantidade: Unidade, Pluralidade e Totalidade.
2. Qualidade: Realidade, Negação e Limitação.
3. Relação: Substância, Causalidade e Comunidade.
4. Modalidade: Possibilidade, Existência e Necessidade.
São formas vazias, a serem preenchidas pelos fenômenos. Os fenômenos, por outro lado, só podem ser pensados dentro das categorias.
Em Hume, a causalidade - relação de causa e efeito - era um hábito, uma ilusão. Já para Kant, Hume estava errado em procurar a causalidade na Natureza. Só podemos pensar as coisas em uma relação de causa e efeito porque a causalidade está no sujeito, não no mundo. Uma criança vê uma bola sendo arremessada (causa) e olha na direção de quem atirou a bola (efeito). Como a criança liga um fato com o outro? Porque ela possui, a priori, a categoria de causalidade, que a permite conhecer.
Chegamos, portanto, a uma síntese que Kant faz entre racionalismo e empirismo. Sem o conteúdo da experiência, dados na intuição, os pensamentos são vazios de mundo (racionalismo); por outro lado, sem os conceitos, eles não têm nenhum sentido para nós (empirismo). Ou, nas palavras de Kant: "Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado, e sem entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas."
Mas, o que são os juízos de que Kant fala?
Um conhecimento que seja totalmente independente dos sentidos é chamado a priori. São, por exemplo, equações matemáticas, que posso fazer mentalmente sem me apoiar em qualquer evidência material. Um conhecimento que possui sua fonte na experiência é dado a posteriori, como as leis da física clássica, que necessitam de testes práticos para serem comprovadas.
Quando emito um juízo em que o predicado está contido no sujeito, ele é chamadojuízo analítico. Por exemplo, quando digo "Azul é uma cor", o predicado "cor" já é uma qualidade do sujeito "azul" e a informação, por isso, é redundante. Mas quando faço um juízo em que um predicado é acrescentado ao sujeito, ele é chamado sintético. Por exemplo, na frase "A cadeira de minha sala é azul", acrescento ao sujeito "cadeira de minha sala" o predicado "azul" (afinal, ela poderia ser verde, vermelha, etc.). É uma informação nova, pois você poderia imaginar que a cadeira fosse de qualquer outra cor.
Todos os juízos da experiência são sintéticos, uma vez que, para obter um juízo analítico, não é preciso sair do próprio conceito, isto é, recorrer à experiência (não preciso sair de "azul" para saber que é uma cor, mas preciso ver a "cadeira" para saber de que cor ela é).
Sujeito transcendental
Kant chamou de "revolução copernicana" sua resposta ao problema do conhecimento. O astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543) formulou a teoria heliocêntrica - a teoria de que os planetas giravam em torno do Sol - para substituir o modelo antigo, de Aristóteles e Ptolomeu, em que a Terra ocupava o centro do universo, o que era mais coerente com os dogmas da Igreja Católica.
Como pode ser constatado pela observação direta, o Sol se "levanta" e se "põe" todos os dias, o que tornava óbvio, aos antigos, que a Terra estava fixa e que os astros giravam em torno dela. Copérnico demonstrou que este movimento é ilusório, porque, na verdade, a Terra é que gira em torno do Sol.
Kant propôs inversão semelhante em filosofia. Até então, as teorias consistiam em adequar a razão humana aos objetos, que eram, por assim dizer, o "centro de gravidade" do conhecimento. Kant propôs o contrário: os objetos, a partir daí, teriam que se regular pelo sujeito, que seria o depositário das formas do conhecimento. As leis não estariam nas coisas do mundo, mas no próprio homem; seriam faculdades espontâneas de sua natureza transcendental. Como Kant afirma no prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura:
"Até agora se supôs que todo nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que ampliaria o nosso conhecimento, fracassaram sob esta pressuposição. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento, o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que deve estabelecer algo sobre os mesmos antes de nos serem dados."
O que Kant quer dizer é que o sujeito possui as condições de possibilidade de conhecer qualquer coisa. Ele possui as regras pela quais os objetos podem ser reconhecidos. Não adianta buscar essas regras no mundo exterior, pois se cairia no problema de Hume. O mundo não tem sentido a não ser que o homem dê algum sentido a ele. O que conhecemos, então, é profundamente marcado pela maneira - humana - pela qual conhecemos.
O computador no qual escrevo, a janela do escritório que me permite ver todas as coisas do mundo, tudo isso é matéria de conhecimento não porque exista um Deus que me faculte entender as leis dos objetos por meio da razão (como no caso de filósofos racionalistas) ou porque estes objetos sejam imprimidos em minha mente pela percepção (empirismo), mas porque eles são capturados por formas lógicas no sujeito.
COISA-EM-SI
Mas ao voltar o foco para o sujeito que conhece, que "constrói" o mundo, é bloqueado todo pretenso acesso à essência dos objetos do mundo. Só temos acesso às coisas enquanto fenômenos para uma consciência. O que a realidade é, em si mesma, o que Kant chama de coisa-em-si, não é matéria de conhecimento humano, sendo, portanto, incognoscível (aquilo que não pode ser conhecido).
A coisa-em-si não pode ser conhecida mas pode ser pensada, desde que seja contraditório (conhecer, em Kant, diz respeito ao que é possível de ser objeto da experiência).
Três objetos de estudo da metafísica podem ser pensados mas não conhecidos:Deus, a imortalidade da alma e a liberdade. Deus e a alma não podem ser conhecidos porque não aparecem como fenômenos no espaço e no tempo. A liberdade, porque contraria o princípio de causalidade: liberdade é aquilo que não tem causa, e o que é absolutamente livre não pode ser matéria de conhecimento. São, no entanto, postulados para a ética de Kant, da qual não trataremos neste artigo.

A filosofia crítica de Kant consiste, desta forma, em impor à razão os limites da experiência possível. O filósofo alemão pretende, com isso, fornecer rigor metodológico à metafísica, livrando-a de seu caráter dogmático e trazendo-a para o rumo seguro da ciência. Este método que analisa as possibilidades do conhecimento a priori do sujeito, dentro dos limites da experiência, é chamado de transcendental.

Dê uma olhada nas tabelas para ajudar a visualizar o que até aqui discutimos:



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Dons, Carismas e Frutos do Espírito Santo na alma


Os dons infusos ou de santificação são instrumentos poderosos de Deus para a construção da santidade em nossas vidas, eles completam e levam à perfeição as virtudes daqueles que os recebem, tornando os fiéis dóceis para obedecer as inspirações divinas. São eles:


DOM DO TEMOR DO SENHOR


Este dom consiste em um temor filial da alma que receia, rejeita, tem horror de causar uma ofensa ao Pai infinitamente bom, digno de toda fidelidade, quer dizer, consiste num horror ao pecado, que modera os ímpetos desordenados da nossa concupiscência e, nos impede de desgostar a Deus. A alma afasta, com todas as forças, tudo quanto poderia desagradar a Deus. Portanto, esse dom difere totalmente do temor mundano, que é o medo de desgostar os homens; do temor de pena, que é o medo de um mal terreno; do temor servil, que é o medo do castigo (este, muito embora impeça de pecar, não provém do amor).


DOM DA PIEDADE


Este dom produz em nós um amor filial para com Deus, adorando-O com amor sobrenatural e santo fervor, e um amor verdadeiro para com os irmãos, seja quem for, e para com as coisas divinas.


Este dom faz com que a nossa oração seja um diálogo aberto, sincero, confiante de um filho para seu pai, longe de todo comércio interesseiro que embaraça tantas vidas de oração, cujo primeiro objetivo, ao se dirigirem a Deus, parece ser exclusivamente para mendigar socorros, graças. Conduz a nossa oração, em primeiro lugar, para o silêncio e a adoração, e faz-nos pairar acima de toda consideração interesseira, acima de toda necessidade e benefícios, faz-nos olhar, para o autor das graças. Isto não quer dizer que não façamos orações de súplica, de perdão, de intercessão, mas em nossa oração está em primeiro lugar o louvor e a adoração.
Este dom também nos leva a olhar os outros como irmãos e produz em nós um desejo profundo de servi-los, de nos dar generosamente a eles.
Frutos alcançados por esse dom: confiança ilimitada em Deus e abandono em suas mãos; fraternidade; capacidade de nos santificar alegremente dando-nos a nós mesmos sem limites.


DOM DA FORTALEZA


Este dom imprime na alma um impulso, uma força que lhe permite suportar com paciência e alegria, sem murmuração, por amor a Deus, as maiores dificuldades e tribulações, todas as crucifixões da vida e se necessário empreender ações extraordinárias ou atos sobrenaturais heróicos: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fil 4,13); “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força” (II Cor 12,9).
Frutos alcançados: uma superação constante de nós mesmos em meio aos desafios, às tentações, às provações e os acontecimentos difíceis; uma paz inalterável, sobrenatutal; a disposição firme para colaborar com o que é necessário para a salvação de nossa alma.


DOM DA PRUDÊNCIA OU ESPÍRITO DE CONSELHO


Este dom nos conduz a viver sob a orientação do Espírito Santo. O que falar? O que fazer? É tempo de calar ou de falar? É tempo de plantar ou arrancar? A resposta certa para essas perguntas nos é dada por este dom. É o dom das luzes que nos orienta acertadamente. Desta forma, é por excelência, o dom de governar, pois é muito importante para aqueles que são constituidos em autoridade, concedendo-lhes um governo prudente e sobrenatural, que se preocupa, antes de tudo, com o bem espiritual das almas e da glória de Deus. No entanto, não deixa de ser necessário a todas as almas para a perfeita orientação da vida de acordo com os planos de Deus. A esses concede uma docilidade vigilante em se submeterem a todos os planos de Deus manifestados por seus representantes legítimos.


Frutos alcançados por esse dom: Conhecer com segurança a vontade de Deus para si e para a vida dos seus irmãos; Conhecer os meios de agradar a Deus ultrapassando o que é obrigatório; deixar-se guiar pela mão de Deus, sem resistência, para o caminho de perfeição que Deus chamou.


DONS DE CIÊNCIA, INTELIGÊNCIA E SABEDORIA


Os dons de Ciência, Inteligência e Sabedoria nos fornecem a chave da vida espiritual, da vida de intimidade com Deus, de união com Deus. O dom de ciência não é um conhecimento intelectual, mas nos fornece o conhecimento das coisas criadas nas suas relações com o Criador. Explicando melhor, o dom de ciência nos faz reconhecer que as coisas criadas são vãs em si mesmas. Descobrimos o “nada” que é a criatura e o “tudo” que é Deus. Experimenta-se o vazio da criatura em relação a Deus. Conseguimos perceber a grandiosidade, a majestade de Deus e isso nos conduz a colocar todas as coisas e pessoas no seu devido lugar e importância, porque Deus é a primazia sobre tudo. Isto nos leva a dar glória ao que verdadeiramente é glória, honra o que verdadeiramente é honra, descanso ao que verdadeiramente é descanso, como nos diz Santa Teresa D’Ávila. O dom de


Os dons efusos do Espírito Santo (carismas) são dons extraordinários dados pelo Espírito aos batizados, são também conhecidos como dons de serviço pois servem para a evangelização e o pastoreio da Igreja.


1. DOM DE LÍNGUAS:



“Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza, porque não sabemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26).
O dom de línguas é um dom de oração. Este dom vem socorrer a nossa dificuldade de orar: nós não sabemos “o que” nem “como” pedir a Deus ou o que dizer a Deus. Ele vem suprir nossa oração fraca e débil, vem nos fazer orar, mas orar segundo a vontade de Deus. O próprio Espírito Santo que habita em nós, ora em nós e por nós. Vem nos capacitar a orar de forma divina.


Ainda que nós não entendamos os gemidos inefáveis com que o Espírito ora, canta, e fala em nós e através de nós, sentimos que o nosso coração e o nosso espírito estão em oração. No entanto, não deixamos de estar conscientes, sabemos perfeitamente o que estamos fazendo, pois oramos com a nossa língua e com a nossa vontade, por isso somos livres para começar e terminar quando queremos.
O dom de línguas é a porta para todos os outros dons carismáticos, porque abre todo o ser do homem para a ação do Espírito Santo e para o crescimento da vida no Espírito.
O dom de línguas é a primeira manifestação sensível e visível da presença do Espírito Santo ( At 2,1-4; 10,6s; 19,6s).


O dom de línguas nos une em torno de Cristo. É dom que promove a unidade entre os cristãos, atraindo-os a Jesus Cristo e à Igreja (At 2,5-6).


Cantar em línguas:



O Espírito Santo de Deus, plenamente rico de graças, concede aos fiéis o dom de “cantar” em línguas. “Cantarei com o Espírito” (I Cor 14,14). Isto significa que o Espírito Santo através do dom de línguas, utiliza-nos para elevarmos um canto ao nosso Deus, levando-nos a expressar-lhe um louvor no Espírito a Deus. O Espírito nos capacita a glorificar o Senhor de maneira profunda, sincera e perfeita. Nesse louvor no Espírito, unimo-nos aos anjos e santos, que não cessam de, no céu, louvar o Senhor.


Dom de falar em línguas:



“Maior é quem profetiza do que quem fala em línguas, a não ser que este as interprete, para que a assembléia receba edificação” (I Cor 14,13).
O dom de línguas também se manifesta através de “falar” em línguas, que significa proclamar uma mensagem de Deus a um grupo ou assembléia de oração, através de línguas estranhas.


2. DOM DE INTERPRETAÇÃO DAS LÍNGUAS:



“…a outros, por fim, a interpretação das línguas” (I Cor 12,10).
Ao proclamarmos uma mensagem de Deus em línguas é necessário suplicarmos o dom de as interpretar, pois toda mensagem de Deus para o seu povo tem o objetivo de edificá-lo. E ao proferirmos palavras ininteligíveis, como se compreenderá o que dizemos? Seremos como quem fala ao vento (cf. I Cor 14,9). O Espírito Santo concede que se compreenda o que está sendo dito em línguas. Esta compreensão se dá com o “coração”, e não através de uma tradução conceitual e gramatical das palavras.


Este carisma pode ser dado tanto à pessoa que está orando ou falando em línguas, quanto a outra pessoa que está participando do grupo de oração. O dom de profetizar em línguas e o de as interpretar são dons que se complementam reciprocamente: “aquele que tem o dom de falar em línguas reze para ter o dom de interpretá-las ( I Cor 14,13).


3. DOM DE PROFECIA OU PALAVRA DE PROFECIA:



Deus se manifesta aos homens também através do dom da profecia. Este dom pode se manifestar através de uma palavra, de um sentimento, em línguas, que requer a interpretação, de um canto, de uma visão (At 10,9-48), com entendimento espiritual de um sonho (Num 12,6).


São Paulo considera o dom da profecia superior a todos os outros dons, pois reconhece que através deste dom, Deus fala claramente e de forma simples, mas direta, com o homem (I Cor 14,5).


O dom da profecia é para todos os homens de boa vontade e de fé que querem recebê-lo (I Cor 14,30). Também é importante que haja confirmação da profecia através de moções dadas a outros.


A palavra de profecia deve passar pelo “crivo” do discernimento dos espíritos. É importante que as examinemos se são divinas, humanas ou diabólicas ( I Tes 5,21; Mt 7,15).


Geralmente as profecias são ditas na primeira ou segunda pessoa, pois o Senhor é um deus pessoal e nos falará diretamente: “Não temas, tu és o meu povo”, “Eu sou o teu Deus”. O centro de todas profecias é Jesus Cristo e o seu evangelho, portanto as palavras proféticas têm que estar de acordo com a palavra de Deus, com a palavra da Igreja e dirigida à glória de Deus e a salvação dos homens (Dt 13,2-4).


4. DOM DE CIÊNCIA OU PALAVRA DE CIÊNCIA:



A palavra de ciência é o dom através do qual o Senhor faz com que o homem entenda as coisas da maneira que ele entende; faz com que o homem penetre na raiz de cada acontecimento, fato, situação, estado de espírito. Portanto, através deste dom o Senhor dá um diagnóstico de um fato, uma situação, um estado de espírito… e do que Ele quiser revelar.


A palavra de ciência se manifesta através de um sentimento, de uma palavra, de uma frase (Jo 4,50), de uma visão, de um sonho (Mt 1,18-25).


O dom da palavra de ciência revela uma ação que Deus já está fazendo ( a cura, por ex.), uma obra que Deus acaba de fazer ou uma obra que Deus quer fazer, mas que precisa da colaboração da pessoa ou uma situação ou através do poder e da misericórdia de Deus que cura o corpo e o coração.


Um exemplo muito claro do dom de ciência na Bíblia, foi a revelação que Jesus recebeu do Pai ao dialogar com a samaritana, de que ela tinha tido cinco maridos. Por este dom a samaritana experimentou a misericórdia de Deus que a levou ao arrependimento e a conversão, reconhecendo Jesus como o Messias, além de se tornar uma anunciadora de Jesus em Samaria.


5. DOM DA SABEDORIA OU PALAVRA DE SABEDORIA:



“A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria” ( I Cor 12,8).
A palavra de sabedoria inspira o homem a saber como deve ser seu comportamento em cada situação, em cada vez que tem que resolver um fato ou um problema, a falar inteligentemente em situações concretas da sua vida ou de sua comunidade, levando-o a decidir acertadamente e de acordo com a vontade de Deus, no dia a dia, no matrimônio, no trabalho, na educação dos filhos, nos relacionamentos com os irmãos e na sua vida cristã. É uma orientação de Deus sobre como se viver cristãmente (Lc 18, 18-30).


A palavra de sabedoria conduz o procedimento humano em cada situação:
– Como agir (I Rs 3,16-28);
– Como falar ( Mt 22,21);
– Como fonte de discernimento espiritual;
– Prepara o nosso coração para receber o ensinamento divino ( Lc 12,13-21);
– Como fonte de ensinamento segundo a sabedoria de Deus (Mt 6,1-21);
– Nos faz testemunhar com sabedoria (Paulo diante do rei Agripa – At 26,28);


Este dom deve ser amplamente exercitado pelo cristão na oração pessoal e comunitária para que ele tenha encontros transformadores em sua vida. A manifestação desse dom pode acontecer através de palavras da própria Escritura, por uma palavra, por uma visão, por um sentimento, por um sonho.


6. DOM CARISMÁTICO DA FÉ:



“a outros é dado pelo Espírito, a fé” ( I Cor 12,9).
O carisma da fé é uma graça especial que nos dá a certeza de que Deus agirá, de que o poder de


Deus irá intervir em alguma situação da vida do homem confirmando nossa ação e oração com o sinal que lhe pedimos. É uma graça à qual devemos nos abrir e pedir a Deus. Pela fé carismática cremos que Deus opera hoje maravilhas em favor do seu povo. A fé move a manifestação do poder de Deus.


7. DOM DOS MILAGRES:



“a um é dado pelo Espírito o dom de milagres” (I Cor 12,10).
O dom de milagres é a ação do Espírito Santo que, para o bem de alguém, modifica o curso normal da natureza. O milagre é uma intervenção clara, sensível e visível de Deus no decurso “ordinário” ou “normal” dos acontecimentos: curas instantâneas de doenças incuráveis, ressurreição dos mortos, fenômenos extraordinários da natureza ( cf. At 3,4-11; 4,30-31).


O mundo atual necessita do exercício do dom de milagres, pois Deus deseja e continua a realizar suas obras extraordinárias no meio do seu povo, hoje.
Devemos fazer distinção entre milagre e cura. O primeiro, quando se manifesta através de uma cura que nenhuma ciência médica poderia conseguir, e que Deus realiza. No segundo caso, a cura pode acontecer através de um medicamento, de uma cirurgia, etc.


8. DOM DAS CURAS:



“a outro, a graça de curar as doenças no mesmo Espírito” (I Cor 12,9b).
O dom das curas pode se manifestar de três formas. Tomando-se por base as três dimensões do homem: corpo, alma e espírito ( cf. I Tes 5,23), compreendemos que este mesmo homem pode ser atingido por enfermidades em suas três dimensões. Existem os males físicos, os da alma ou interiores e espirituais. Se somos atingidos em qualquer área interior, necessitamos de uma cura interior. Se somos atingidos em nosso espírito, contaminando-nos com falsas doutrinas e apartando-nos sã doutrina da salvação, precisamos de uma cura espiritual ou libertação. Se somos atingidos no corpo com alguma enfermidade, necessitamos de uma cura física.


9. DOM DO DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS:



“A outro é dado pelo Espírito o discernimento dos espíritos” ( I Cor 12,10).
Este dom nos permite discernir, examinar, perceber e identificar em nós mesmos, nas outras pessoas, nas comunidades, nos ambientes e nos objetos o que é de Deus ou o que é da natureza humana, ou ainda, o que é do maligno.


Este dom, como todos os outros, é muito importante para a vida cristã, pois nos levará a distinguir a voz de Deus das outras vozes, que tentam nos confundir. É muito importante que cada cristão se abra inteiramente a este dom para não se deixar arrastar pelas suas paixões e pelas tentações do inimigo e, assim, livremente fazer a vontade de Deus. Talvez, momentaneamente, uma atitude ou palavra, como também um sentimento, ou ainda um pensamento, traga ao cristão realização, alegria, mas se não for da parte de Deus, logo perceberá quão vazia ficou sua alma, pois só a vontade de Deus pode levar o homem à verdadeira alegria e realização.


Por isso é muito salutar o exercício cotidiano desse dom para que cresça em si um discernimento apurado com relação a todas as coisas. Algo pode aparentemente parecer bom, mas só Deus sabe o que é verdadeiramente bom.


O discernimento dos espíritos protege o exercício dos dons carismáticos. Por ele o cristão reconhece se os dons que estão sendo exercidos são impulsionados pelo Espírito de Deus ou se é uma ação humana ou diabólica.


São João nos adverte quanto à necessidade de examinarmos se os espíritos são de Deus e nos ensina como conhecê-lo: “todo espírito que proclama Jesus Cristo que se encarnou é de Deus e que os espíritos do mundo falam segundo o mundo, e quem conhece a Deus, ouve a Deus” (I Jo 4,1-6). Portanto, este dom nos dá a graça de distinguir o espírito da verdade e o espírito do erro.


Os doze principais frutos do Espírito Santo


Considerando os frutos do Espírito Santo como sendo todos os atos últimos e deleitáveis das virtudes e dos dons - ou, em outras palavras, como todas as obras virtuosas com que nos comprazemos -, sua enumeração deveria ser muito extensa. Entretanto, o Apóstolo distingue apenas doze em sua Epístola aos Gálatas: "O fruto do espírito é a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a longanimidade, a bondade, a benignidade, a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade" (Gl 5, 22-23).4 A propósito, Santo Agostinho explica que São Paulo não tinha o intuito de dar o número exato desses dons, mas apenas mostrar o "gênero de coisas" em que devemos buscá-los.5 São Tomás, por sua vez, considera adequada essa enumeração paulina, explicando que "todos os atos dos dons e das virtudes podem, com certa conveniência, ser reduzidos a esses frutos".6 E classifica os frutos enumerados pelo Apóstolo conforme os diferentes modos pelos quais o Espírito Santo procede conosco.A mente humana, esclarece o Doutor Angélico, deve estar ordenada em si mesma, em relação ao que está ao seu lado e em relação ao que lhe é inferior. Os três primeiros frutos do Espírito Santo - caridade, alegria e paz - ordenam a alma em si mesma em relação ao bem, enquanto a paciência e longanimidade o fazem em relação ao mal. Bondade, benignidade, mansidão e fidelidade a ordenam em relação aos outros; e modéstia, continência e castidade, em relação àquilo que lhe é inferior.


Caridade


A caridade - "sentimento primordial e raiz de todos os sentimentos", segundo São Tomás - é o primeiro fruto do Espírito Santo. Nela, o Paráclito dá-Se de forma toda particular "como em Sua própria semelhança", uma vez que, no eterno e inefável convívio entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, Ele é o Amor substancial do Pai para com o Filho, e do Filho para com Pai.7 Quando uma alma é cumulada pela seiva divina do Espírito de Caridade, o amor a arrebata e transforma por completo. Assim aconteceu com Santa Maria Madalena, a pecadora pública perdoada e restaurada a ponto de encabeçar a lista das virgens invocadas na Ladainha de Todos os Santos.Tocada por um amor corajoso, não hesitou ela em comprar os melhores perfumes e, alheia ao respeito humano, lançar-se aos pés de Jesus, lavá-los com suas lágrimas e enxugá- los com seus cabelos. Foi uma manifestação de amor veemente, exclusivo e - quase se diria - irrefletido, por não medir esforços nem calcular consequências. Bem podem se aplicar a ela as palavras de São Francisco de Sales: "A medida de amar a Deus consiste em amá- Lo sem medida". Ou as de São Pedro Julião Eymard: "O que é o amor senão o exagero?".Note-se, entretanto, que a caridade nem sempre vem acompanhada de consolações para a alma que a pratica, pois, sendo uma virtude, reside na vontade, e não no sentimento. Assim, "não se trata necessariamente de um amor sentido, mas de um amor intensamente querido; e tanto mais querido, nas almas fervorosas, quanto menos sensível for".8A verdadeira prova da autenticidade da caridade é o fato de ela vir acompanhada de uma repulsa inteira ao pecado, pois diz Santo Agostinho: "Ficará demonstrado que amas o que é bom se vires em ti que odeias o que é mau".9 Não podemos esquecer, por fim, um fundamental desdobramento deste fruto do Espírito Santo, ensinado pelo próprio Cristo: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22, 39). No dizer de Santo Agostinho, "o amor ao próximo é como o princípio do amor a Deus". E "não há degrau mais seguro para subir ao amor de Deus que a caridade do homem para com seus semelhantes".


Alegria


Corolário do amor a Deus e ao próximo é a alegria, "pois quem ama se alegra por estar unido ao amado. Ora, a caridade tem sempre presente a Deus, a quem ama, segundo o dizer da primeira Carta de João: ‘Quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus nele' (I Jo 4, 16). Portanto, a alegria é consequência da caridade". Longe de se confundir com os gozos passageiros, provenientes de frivolidades ou de ações proibidas pela Lei de Deus, que logo se transformam em frustração, a alegria do Espírito Santo é toda sobrenatural e penetra até o fundo da alma. Por isso pôde São Paulo dizer: "Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações" (II Cor 7, 4).


Paz


"Mas a perfeição da alegria é a paz", afirma o Doutor Angélico. E isto sob dois aspectos: "Primeiro, quanto ao repouso das perturbações exteriores, pois não pode desfrutar perfeitamente do bem amado o que é perturbado por outros nessa fruição". E, segundo, "no sentido que ela acalma a instabilidade dos desejos, pois não goza da alegria perfeita quem não se satisfaz com o objeto que o alegra". Não há, pois, absolutamente nada que possa perturbar uma alma abandonada à ação do Espírito Santo, porque ela "têm consciência de estar na posse do único bem a que está apegada; sabe que possui a Deus; sabe-se amada por Ele ‘até a loucura', apesar de sua miséria e, por sua vez, também ama a Deus sem medida". De fato, como a paz é procurada em nossos dias, e como parece escorregar de nossas mãos! Numa existência agitada e ruidosa, marcada a fundo pela violência e pelo pecado, tudo concorre para arrancar- nos a paz interior. Como são atuais as palavras de Jeremias: "Exclamam ‘Paz, paz!' quando não há paz" (Jr 6, 14).


Paciência


Depois de considerar os frutos do Espírito Santo que ordenam a mente para o bem, vejamos aqueles que a levam a atuar de forma correta perante a adversidade: a paciência e a longanimidade.O primeiro nos torna inalteráveis ante os males iminentes; o segundo, imperturbáveis com a prolongada espera dos bens, dado que a privação destes já é um mal. Derivada da fortaleza, a virtude da paciência "inclina a suportar sem tristeza de espírito nem abatimento de coração os padecimentos físicos e morais". Segundo Santa Catarina de Sena, a paciência é a "rainha posta na torre da fortaleza, que vence sempre e nunca é vencida". Assim aconteceu com o justo Jó que, tendo perdido as riquezas, os filhos e a saúde, com a mesma atitude de alma continuava glorificando seu Criador: "O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!" (Jó 1, 21).Quando o Espírito Santo produz em nossas almas esse fruto, tornamo- nos conformes à vontade de Deus; almejamos imitar o exemplo de Jesus Cristo e de Maria Santíssima na Paixão; compenetramonos da necessidade de reparar nossos pecados, purificando-nos no cadinho do sofrimento.


Longanimidade


Pela longanimidade, o Espírito Santo nos leva a aguardar com equanimidade, sem queixas nem amargura, os bens que esperamos de Deus, do próximo e de nós mesmos. Não se trata de uma espera passiva e preguiçosa, mas sim de uma manifestação de coragem que se estende no tempo, de uma dilatada esperança que nos faz fortes de alma nas delongas espirituais.


Frutos de longanimidade vemos em abundância na vida de Santa Mônica, durante os muitos anos em que receava pela salvação eterna do filho Agostinho, transviado na imoralidade e na heresia. Sem nunca esmorecer na confiança, rezava persistentemente pela sua conversão.Deus, comprazido em contemplar nessa mãe exemplar os frutos que Ele mesmo semeara, deu-lhe a honra sublime de ter o filho elevado à condição de um dos grandes luminares da Santa Igreja.


Bondade


Depois de bem disposta a mente em relação a si mesma, cumpre ajustá- la em relação ao que lhe está ao redor: o próximo. Isto se dá, em primeiro lugar, pela bondade, isto é, pela "vontade de agir bem". Por efeito de nossa união com Deus, somos compelidos pelo Espírito Santificador a beneficiar os outros.Nossa alma como que se dilata e expande, a ponto de nos converter, de certa forma, em amor. Pois, "como o carvão ou a barra de aço, em si mesmos negros e frios, se tornam brilhantes e ardentes como o fogo, assim a alma imersa nesse braseiro de amor que é o Espírito Santo se torna semelhante em todas as coisas ao divino Espírito". Jesus nos deixou registrado o paradigma dessa bondade na parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).Deus é o pai que espera ardentemente o retorno daqueles que d'Ele se afastaram pelo pecado e se encontram enlameados e impregnados de mau odor. Fica ansioso, por assim dizer, de nos ver procurar um de seus ministros no misericordioso tribunal da Reconciliação, para nos perdoar, sarar nossas feridas espirituais e fortalecer-nos a fim de não reincidirmos nas mesmas faltas.


Benignidade


O fruto da benignidade se distingue ao da bondade por já ser, não só um querer, mas um praticar efetivo do bem. Aqui o carvão ou a barra de aço do exemplo anterior não apenas brilham e ardem, mas queimam e inflamam.Por isso "chamam-se benignos aqueles a quem o ‘fogo bom' do amor se inflama em favor do próximo". Modelo desse amor que "se inflama em favor do próximo" foi São Vicente de Paulo. Pedia insistentemente a Deus que lhe desse um espírito benigno; e conseguiu, com a ajuda da graça, domar seu temperamento seco e bilioso, tornando- se cortês e afável.Transformou-se a ponto de se lhe tornar natural uma polidez de trato maravilhosa, com palavras sempre amáveis para todo tipo de pessoas.


Mansidão


Uma terceira disposição da mente ao ordenarse em relação ao próximo é a mansidão, pela qual refreamos a ira e suportamos com serenidade de espírito os males infligidos pelos outros.Santa Teresinha do Menino Jesus nos dá belíssimos exemplos de mansidão perante impulsos de irritação, ensinando-nos a praticar esta virtude na vida cotidiana.Eis um deles: Estando um dia as freiras trabalhando na lavanderia conventual, constituída por grandes tanques comunitários, aconteceu de uma irmã, por falta de atenção, lançar sobre a Santa uma chuva de água com sabão. Como é natural, isso lhe provocou um ímpeto de indignação. Mas, acalmada pela brandura do Espírito Santo, logo se conteve, recorrendo ao piedoso subterfúgio de imaginar que o Menino Jesus estava brincando com ela... esborrifando-lhe água e sabão.


Fidelidade


Como último fruto de nosso bom relacionamento com o próximo, temos a fidelidade, que nos faz "manter a palavra dada, as obrigações assumidas, os contratos estipulados". A fidelidade complementa a mansidão no sentido de que, se esta nos leva a não prejudicar o próximo pela ira, aquela nos conduz a não fraudá-lo nem enganá-lo. Ora, "isso é a fé, tomada no sentido de fidelidade", afirma São Tomás. "E se a tomarmos como fé em Deus, então o homem por ela se ordena ao que lhe é superior, ou seja, dispõe- se a submeter seu intelecto a Deus e, por consequência, tudo o que possui".


Modéstia


Por fim, após ordenar-se a mente em face do que lhe está em volta, cumpre fazê-lo quanto ao que lhe é inferior, e isto se dá em primeiro lugar pela modéstia, "observando o comedimento em tudo o que diz e faz".Esta virtude mantém nossos olhos, lábios, risos, movimentos, enfim, toda a nossa pessoa, sem excluir nossos trajes, nos justos limites "que correspondem a seu estado, habilidade e fortuna". Santo Agostinho recomenda particular cuidado com a modéstia exterior, que tanto pode edificar quanto escandalizar os que nos rodeiam. Note-se que a afirmação do Bispo de Hipona não deve ser interpretada num sentido exclusivamente negativo. A modéstia exterior inclui também o dever positivo de revestirse das roupas, gestos e atitudes próprias a edificar o próximo e dar glória a Deus.Lê-se na vida de São Francisco de Assis um episódio que ilustra quanto o cumprimento desse dever pode produzir nas almas um efeito equivalente ou talvez maior que o de um sermão. Certa vez, ele convidou um frade, seu discípulo, a acompanhálo: - Irmão, vamos fazer uma pregação - disse-lhe.Após percorrerem a cidade em silêncio, São Francisco retomou o caminho do convento. Sem entender o que se passava, o frade perguntou: - Mas, meu pai, não dissestes que íamos fazer uma pregação?Aqui estamos de volta, e não proferimos uma só palavra... E o sermão? - Já o fizemos. Não percebes que a vista de dois religiosos andando pelas ruas com estas vestimentas e em atitude de recolhimento vale tanto quanto um sermão? - respondeu o Santo.


Continência e Castidade


Também em relação ao que lhe é inferior - isto é, às paixões - ordenam o homem a Continência e a Castidade.Segundo São Tomás, elas se distinguem uma da outra "quer porque a castidade nos refreia em relação ao que é ilícito, e a continência ao que é lícito, quer porque a pessoa continente sofre as concupiscências, mas não se deixa arrastar por elas, enquanto o casto nem as sofre e muito menos as segue". Com efeito, a alma que produz o fruto da castidade torna-se realmente angélica. Muito ao contrário dos tormentos interiores de agitação e ansiedade, nos quais vive quem se entrega às paixões desordenadas, o casto já antegoza o Céu na terra.A continência, a seu lado, "robustece a vontade para resistir às concupiscências desordenadas muito veementes"; portanto, indica um freio, enquanto a pessoa abstém-se de obedecer às paixões. Ela, assim, prepara a alma para essa castidade, pois "os que fazem tudo quanto é permitido acabarão por fazer o que não é permitido".


Espírito de Amor e intercessão de Maria


Qual navio batido pelas ondas na procela, a alma sente neste vale de lágrimas os falaciosos atrativos da carne, convidando-a ao naufrágio.Muito bem exprime São Paulo essa difícil situação: "Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?" (Rm 7, 23-24).Mas, aos olhos do bravo navegante que, em vez de desanimar, ergue a vista à busca da salvação, sempre está a brilhar um farol: "A lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte.O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez" (Rm 8, 2-3).Dada a nossa natural insuficiência, agravada pelas consequências do pecado original, torna-se indispensável o auxílio divino para completarmos a árdua corrida rumo à eterna bem-aventurança. E o Espírito de Amor vem sempre em socorro da nossa fraqueza, com suas graças e dons. Ele não cessa de interceder por nós "com gemidos inefáveis" (Rm 8, 26) e ainda nos dá como medianeira e advogada sua Fidelíssima Esposa.Saibamos recorrer sempre a Ela. Pois a poderosa intercessão de Maria Santíssima é a via mais segura para transformar graminhas estéreis em frondosas árvores carregadas de frutos.



terça-feira, 4 de outubro de 2016

Minoridade Franciscana

“Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?”  

Estava uma vez S. Francisco no convento da Porciúncula com Frei Masseo de Marignano, homem de grande santidade, discrição e graça em falar de Deus; pela qual coisa S. Francisco o amava muito; um dia, voltando S. Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade; foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse: “Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?” S. Francisco respondeu: “Que queres dizer?” Disse Frei Masseo: “Por que todo o mundo anda atrás de ti e toda a gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te? Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?” Ouvindo isto, S. Francisco, todo jubiloso em espírito, levantando a face para o céu por grande espaço de tempo, esteve com a mente enlevada em Deus; e depois, voltando a si, ajoelhou-se e louvou e deu graças a Deus; e depois, com grande fervor de espírito, voltouse para Frei Masseo e disse: “Queres saber por que a mim? Queres saber por que a mim? Queres saber por que todo o mundo anda atrás de mim? Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais em cada lugar contemplam os bons e os maus: porque aqueles olhos santíssimos não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente nem maior pecador do que eu; e assim, para realizar esta operação maravilhosa, a qual entendeu de fazer, não achou outra criatura mais vil sobre a terra; e por isso me escolheu para confundir a nobreza, e a grandeza e a força e a beleza e a sabedoria do mundo; para que se reconheça que toda a virtude, e todo o bem é dele e não da criatura, e para que ninguém se possa gloriar na presença dele; mas quem se gloriar se glorie no Senhor, a quem pertence toda a honra e glória na eternidade”.

Então Frei Masseo, ouvindo tão humilde resposta, dada com tanto fervor, se espantou e conheceu certamente que S. Francisco estava fundado na verdadeira humildade.

Em louvor de Cristo. Amém.

São Francisco de Assis rogai por nós e nos ajude a amar Nosso Senhor, como tu O amaste aqui na Terra.

São Domingos Sávio e a Escravidão de Amor

Conta-se que:
"Quando São João Bosco teve a aparição de São Domingos Sávio poucos dias depois que este havia morrido, quis fazer-lhe esta pergunta:
- Diga-me Domingos, qual foi a coisa mais consoladora para ti, na hora da morte?
- Dom Bosco, adivinhe?
- Talvez o pensamento de ter bem guardado o lírio da pureza?
- Não.
- Talvez o pensamento das penitências feitas durante a vida?
- Nem isso.
- Então terá sido a consciência tranquila... livre de todo o pecado?
- Este pensamento me fez bem; mas a coisa mais consoladora pra mim na hora da morte foi pensar que tinha sido devoto de Nossa Senhora! Diga-o aos seus jovens e recomende com insistência a devoção a Nossa Senhora."