O longa Bird box, adaptado de um livro homônimo, tem um enredo interessante se estivermos atentos a alguns detalhes:
A narrativa gira em torno de uma mulher, o que desconstrói a noção de heroísmo do Ocidente.
A personagem principal é a chave para entender a noção de gaiola ou de aprisionamento: desde o começo, a personagem se isola do mundo, não se conecta com as pessoas, manteve-se distante de tudo e de todos, e até de seus quadros, que permanecem incompletos.
"Os seres" me parecem a promessa Ocidental de "purificação da humanidade". Isso fica evidente pela contraposição entre a opressão causada por aquela realidade que as pessoas vêm e a realidade das coisas como elas são na natureza. Tal oposição faz pensar em como o mundo está invadido por imagens que nos oprimem e nos levam por um caminho de auto-aniquilação, uma sociedade "espetacular" que vai envenenando a mente humana e fazendo com que nossos "demônios" interiores aflorem, ganhem força e nos dominem, até que nos matem por nossas próprias "escolhas livres" (livres na aparência, mas condicionada pela "realidade que vimos ao olhar").
Sim, o suicídio na narrativa é um símbolo de como as pessoas estão cometendo suicídio na existência ao abrirem mão da vida para lançar-se em uma ilusão de felicidade. Essas pessoas são a maioria da humanidade. Outras pessoas são afetadas de um outro modo: se encantam com o caos e com o terror e desejam que os outros enxerguem o mal como beleza, acabando por matar a todos nesse processo. Estas pessoas são aquelas que não internalizando o mal, mas os manifestam socialmente. São os "loucos" no sentido de serem aqueles que já instauram o mal com seu agir.
Além do aspecto psicológico dos "seres", há uma referência aos "regimes políticos de promessas" em que se pretende "fazer o fim do mundo grande novamente", uma clara menção a fala de Trump, muito comum nos discursos de alguns candidatos ao redor do mundo.
Vale a pena perceber como os personagens são muito distintos, tanto nas etinias quanto nas opções de vida, na sexualidade e nos sonhos. Tal fato manifesta que a loucura da "sociedade do espetáculo" afeta a todos em todas as condições existenciais que se colocam. Além disso, os personagens satélites mostram como as pessoas contemporâneas se chocam com a dor e o sofrimento alheio momentâneamente, facilmente distraindo-se com seus interesses e prazeres mais viscerais. Várias cenas chamam a atenção para isso, mas a mais clara é a chegada ao mercado, onde tudo o mais foi relativizado pelo prazer do ter e do consumir, onde o luto desaparece justamente por nunca ter sido real, mas apenas "políticamente esperado".
É importante notar que a personagem Malorie é um símbolo da humanidade que possibilita a existência do outro e do futuro, quando abre mão de si para dar vida a existência dos outros. Somente quando Malorie se conecta com Tom ela escuta uma resposta no comunicador; somente quando se conecta com o Garoto e a Garota, se abrem as portas para que se vislumbre a verdadeira vida em colaboração e comunhão social, na possibilidade de viver mais que sobreviver.
"A Caixa de Pássaros" é a realidade (ou metáfora) dos homens, que vislumbram luz, mas se percebem presos. Contudo, essa prisão não precisa ser opressiva como o estar fora, submetido aos "seres". O enredo se encerra em uma escola para cegos, em que os sobreviventes estão presos, mas livres. Presos porque fora há perigo, mas livres porque entenderam que a liberdade é uma responsabilidade, por si mesmos e pelos outros, e pelos outros dos outros. Responsabilidade ética que não se realiza sem conexão.
É interessante que a colônia de sobrevivência seja em uma escola de cegos, em um lugar em que a conexão com o outro não acontece pela visão ou pela virtualidade. A conexão é realizada pela proximidade e pelo toque, não pela solidão engaiolada das virtualidades.
Não se deve fazer a leitura do enredo pelo viés de filme pós-apocalíptico. O enredo quer discutir a noção de humanidade contemporânea. Nesse sentido, a produção foi bem fiel ao gênero apocalipse, à revelação do aqui e agora por meio de uma linguagem simbólica.
Fica a dica para uma sessão pipoca com a Netflix !
#pensandoalto
Um espaço aberto ao diálogo e a partilha em filosofia, teologia e cultura geral!!!! Não sei se me dedico a filosofia porque ela é vida ou se me empenho pela vida porque ela é filosofia....
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
A esquizofrenia do "menino veste azul e menina veste rosa"
Vamos lá:
A 'inoscente' (por favor, veja a ironia que estou usando ao aplicar esse vocábulo) frase "menino veste azul e menina cesta rosa" (não é fakenews, o vídeo está aí para quem quiser) é a manifestação da hipocrisia de um governo que escalou o poder com o discurso de que "nenhum viés ideológico deve ocupar o poder". Ora, além de ser uma frase paradoxal, torna-se, agora, um atestado de hipocrisia.
Você deve estar articulando a seguinte oposição: "Mas menino (a) tem que vestir..." Por favor, não termine! E não, não estamos falando de 'ideologia de gênero', estamos falando de pessoas humanas. Olha, a primeira coisa que é importante saber é que não existe ideologia de gênero, mas questões de gênero. Além disso, gênero é o vocabulário que se usa para falar dos papéis sociais assumidos pelos indivíduos na sociedade. Perceba que isso não tem a ver com sexualidade, mas com a possibilidade de um homem ser x coisa geralmente atribuída a mulher e de uma mulher ser y coisa geralmente atribuída a um homem. É disso que se fala ao falar de gênero!
Outra questão é saber que papéis de gênero não influenciam na sexualidade. Queria te dizer que o uso de uma cor não torna alguém mais hétero ou mais homo. A questão da sexualidade permanece ainda uma questão de investigação das ciências, sem uma resposta definitiva até hoje. Porém, o discurso assumido pela ministra acaba sendo perigoso, porque rompe a normalização e normalidade da diversidade, fazendo com que a massa escute que o menino que veste rosa seja visto como menos menino e, consequentemente, alguém que precisa ser normatizado. O problema é que a normatização, às vezes, faz-se por meio da violência verbal, social, emocional e física! Tal postura tende a invisibilizar as diferenças individuais que as pessoas tem. Tal processo já começou com a exclusão da comunidade LGBT da M.P. 870/19. Publicados nesta quarta-feira no Diário Oficial da União (D.O.U.), a Medida Provisória 870 e o decreto 9.668 “rebaixaram” a população LGBTI na formulação das políticas e diretrizes de direitos humanos no país. Antes objeto do trabalho de uma secretaria nacional na estrutura do ministério, a exemplo das que contemplam as pessoas com deficiência, crianças e adolescente e o combate à violência contra as mulheres, entre outras, a promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais agora ficará a cargo de uma diretoria subordinada à Secretaria Nacional de Proteção Global, o que representa uma perda de status desta população dentro do sistema, uma silenciamento simbólico daquilo que se perpetua na prática política. Contudo, isso é coerente com a frase do presidente de que "as minorias devem se curvar às maiorias".
Por favor, entenda que não estou "defendendo" a prática LGBT ou a identidade de gênero. Estou, isso sim, defendendo a liberdade das pessoas serem quem são e realizarem seus projetos de vida em uma sociedade que possibilite igualdade perante a lei e a proteção do indivíduo, independente de sua cor, sexo, religião, sexualidade e condições sociais. O que desejo é que o meu próximo tenha aquilo que também desejo para mim: respeito e liberdade de construção do seu projeto de vida dentro do bem comum...
#pensandoalto
A 'inoscente' (por favor, veja a ironia que estou usando ao aplicar esse vocábulo) frase "menino veste azul e menina cesta rosa" (não é fakenews, o vídeo está aí para quem quiser) é a manifestação da hipocrisia de um governo que escalou o poder com o discurso de que "nenhum viés ideológico deve ocupar o poder". Ora, além de ser uma frase paradoxal, torna-se, agora, um atestado de hipocrisia.
Você deve estar articulando a seguinte oposição: "Mas menino (a) tem que vestir..." Por favor, não termine! E não, não estamos falando de 'ideologia de gênero', estamos falando de pessoas humanas. Olha, a primeira coisa que é importante saber é que não existe ideologia de gênero, mas questões de gênero. Além disso, gênero é o vocabulário que se usa para falar dos papéis sociais assumidos pelos indivíduos na sociedade. Perceba que isso não tem a ver com sexualidade, mas com a possibilidade de um homem ser x coisa geralmente atribuída a mulher e de uma mulher ser y coisa geralmente atribuída a um homem. É disso que se fala ao falar de gênero!
Outra questão é saber que papéis de gênero não influenciam na sexualidade. Queria te dizer que o uso de uma cor não torna alguém mais hétero ou mais homo. A questão da sexualidade permanece ainda uma questão de investigação das ciências, sem uma resposta definitiva até hoje. Porém, o discurso assumido pela ministra acaba sendo perigoso, porque rompe a normalização e normalidade da diversidade, fazendo com que a massa escute que o menino que veste rosa seja visto como menos menino e, consequentemente, alguém que precisa ser normatizado. O problema é que a normatização, às vezes, faz-se por meio da violência verbal, social, emocional e física! Tal postura tende a invisibilizar as diferenças individuais que as pessoas tem. Tal processo já começou com a exclusão da comunidade LGBT da M.P. 870/19. Publicados nesta quarta-feira no Diário Oficial da União (D.O.U.), a Medida Provisória 870 e o decreto 9.668 “rebaixaram” a população LGBTI na formulação das políticas e diretrizes de direitos humanos no país. Antes objeto do trabalho de uma secretaria nacional na estrutura do ministério, a exemplo das que contemplam as pessoas com deficiência, crianças e adolescente e o combate à violência contra as mulheres, entre outras, a promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais agora ficará a cargo de uma diretoria subordinada à Secretaria Nacional de Proteção Global, o que representa uma perda de status desta população dentro do sistema, uma silenciamento simbólico daquilo que se perpetua na prática política. Contudo, isso é coerente com a frase do presidente de que "as minorias devem se curvar às maiorias".
Por favor, entenda que não estou "defendendo" a prática LGBT ou a identidade de gênero. Estou, isso sim, defendendo a liberdade das pessoas serem quem são e realizarem seus projetos de vida em uma sociedade que possibilite igualdade perante a lei e a proteção do indivíduo, independente de sua cor, sexo, religião, sexualidade e condições sociais. O que desejo é que o meu próximo tenha aquilo que também desejo para mim: respeito e liberdade de construção do seu projeto de vida dentro do bem comum...
#pensandoalto
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
O Deus enforcado
Havia no campo de concentração um garoto, um pipel, como eram chamados. Um dia, quando voltávamos do trabalho, vimos três forças armadas no local onde nós reuníamos quando era feita a chamada. Fizeram a chamada. Os homens da SS às nossa volta; metralhadoras apontadas: cerimônia tradicional. Três condenados estavam acorrentados e, entre eles, o pequeno pipel. O chefe do campo leu o veredicto. Todos os olhares estavam fixos sobre o menino. Ele estava lívido, quase calmo, mordendo os lábios e coberto pela sombra da forca. Os três condenados subiram ao mesmo tempo nas cadeiras. O pescoço dos três foi introduzido nas cordas.
"Vida longa à liberdade", gritaram os dois adultos.
A criança continuou silenciosa.
"Onde está Deus? Onde está ele", alguém perguntou atrás de mim.
Ao sinal do chefe do campo, as três cadeiras tombaram.
Total silêncio atravessou o campo. Sobre o horizonte, o sol se punha.
Então o desfile começou. Os dois adultos não estavam mais vivos. Suas línguas inchadas penduradas, tingidas de azul. Mas a terceira corda continuava se movendo; sendo tão leve, a criança continuava viva…
Por mais meia hora ele continuou lá, lutando entre a vida e a morte, morrendo em lenta agonia sob nossos olhos. E nós tivemos que olhá-lo de cheio em sua face.
Ele ainda estava vivo quando passei em frente dele. Sua língua continuava vermelha, seus olhos ainda não estavam vidrados.
Atrás de mim, escutei o mesmo homem perguntando:
"Onde está Deus agora?"
"Onde está ele? Aqui está Ele – Ele está pendurado aqui na forca…"
Naquela noite a sopa tinha gosto de cadáveres.
"Vida longa à liberdade", gritaram os dois adultos.
A criança continuou silenciosa.
"Onde está Deus? Onde está ele", alguém perguntou atrás de mim.
Ao sinal do chefe do campo, as três cadeiras tombaram.
Total silêncio atravessou o campo. Sobre o horizonte, o sol se punha.
Então o desfile começou. Os dois adultos não estavam mais vivos. Suas línguas inchadas penduradas, tingidas de azul. Mas a terceira corda continuava se movendo; sendo tão leve, a criança continuava viva…
Por mais meia hora ele continuou lá, lutando entre a vida e a morte, morrendo em lenta agonia sob nossos olhos. E nós tivemos que olhá-lo de cheio em sua face.
Ele ainda estava vivo quando passei em frente dele. Sua língua continuava vermelha, seus olhos ainda não estavam vidrados.
Atrás de mim, escutei o mesmo homem perguntando:
"Onde está Deus agora?"
"Onde está ele? Aqui está Ele – Ele está pendurado aqui na forca…"
Naquela noite a sopa tinha gosto de cadáveres.
(Uma tradução minha da obra de Elie Wisel, The night. p. 102-105)
Uma reflexão: Deus, ao criar o mundo, deu tudo o que podia dar; agora ele suporta em silêncio as consequências de ter criado o mundo, principalmente os resultados da liberdade humana. Em tudo, Ele se dispõe manifestar o poder de Seu braço tirando dos males que causamos um Bem maior, que só pode vir do Transcendente!
#filosofia #teologia
domingo, 26 de novembro de 2017
Medianeira significa 'Mediadora, aquela que faz a mediação; que está no meio, entre Deus e os homens'. A devoção a Nossa Senhora Medianeira vem desde os primórdios do cristianismo. A Igreja sempre professou a fé na intercessão e na mediação de Maria pelo fato de ela ser mãe e corredentora da humanidade junto com Jesus. Mas foi no ano de 1921 que o papa Bento XV instituiu a festa dedicada a ela. Por isso, o Cardeal Primaz da Bélgica, Dom Mercier, teve a inspiração de criar o ícone de Nossa Senhora Medianeira. A imagem, pintada por uma freira franciscana chamada Angelita Stefani, é rica em significados e contém toda a teologia da Mediação de Nossa Senhora. Vamos conhecê-la.
O ícone de Nossa Senhora Medianeira ' visão geral
O ícone de Nossa Senhora Medianeira é dividido em três partes: acima de tudo está a Santíssima Trindade; abaixo vemos Nossa Senhora e, aos pés dela, a terra com o sol e a lua. Assim, numa visão geral, vemos que a Virgem Maria está "entre" Deus e a terra, "entre" Deus e a humanidade. O ícone, porém, tem vários outros símbolos cheios de significados e mensagens.
Os símbolos na Santíssima Trindade
O círculo
A Trindade está dentro de um círculo. O círculo simboliza a eternidade, pois é uma figura geométrica que não tem começo nem fim. Assim é Deus: não tem princípio nem fim. Ele é o princípio de todas as coisas.
Os raios que saem do círculo
Os raios que saem do círculo simbolizam a glória de Deus. Várias passagens bíblicas falam da glória de Deus; que Deus habita uma luz inatingível e que o ser humano não suportaria ver a glória de Deus. Esta glória infinita provém do amor e da beleza infinita de Deus.
As letras Alfa e Ômega dentro do círculo
Alfa e ômega são duas letras gregas que simbolizam o princípio e o fim e nos falam que Deus é o Princípio e o Fim de todas as coisas.
A figura do Pai
A coroa do pai nos fala que Ele é Todo Poderoso, tem todo o poder, é o criador de todas as coisas. Os cabelos e a barba branca do Pai simbolizam a sabedoria e a eternidade de Deus. A túnica branca simboliza a pureza e a perfeição de Deus, pois nEle não existem manchas ou imperfeições. O manto vermelho do pai simboliza o sangue de deu Filho, Jesus, entregue pela humanidade.
A pomba " Espírito Santo
A pomba no peito do Pai simboliza o Espírito Santo, que é o amor entre o Pai e o Filho, sendo a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Estando sobre a cruz de Jesus significa que Ele guiou os passos de Cristo até sua entrega total na cruz.
Cristo Crucificado
O Cristo crucificado também está dentro do círculo. Portanto, é Deus. É a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Estar crucificado dentro do círculo da eternidade significa que o sacrifício de Cristo na cruz é para sempre e sempre atual. Observe que o Pai segura a cruz de Cristo com as mãos, simbolizando que o Pai recebe o sacrifício de seu Filho pela nossa salvação.
Os seis anjos abaixo do círculo
Os seis anjos representam a criação. O número seis é o número da criação, pois Deus criou todas as coisas em seis dias. Estando em volta do círculo na sua parte inferior, significa que toda a criação presta louvor e adoração Deus.
A imagem de Nossa Senhora Medianeira
A frase de São Bernardo
N altura do rosto da Virgem Maria há uma frase de São Bernardo escrita originariamente em Latim e traduzida para o português. Ela diz: 'A vontade de Deus é que recebamos tudo por Maria'. Esta frase encerra toda a teologia da Mediação de Nossa Senhora. Foi através dela que Jesus Cristo se fez humano e conquistou para nós a salvação.
Os raios de Nossa Senhora Medianeira
Os raios simbolizam as graças que chegam até nós pela mediação de Nossa senhora Medianeira. Eles saem da cruz de Cristo, simbolizando que todas as graças nos vem pelos méritos da paixão, morte e ressurreição de Jesus. As graças vem de Deus e não de Maria. Depois, os raios saem dos braços abertos da Virgem Maria e descem para a terra, simbolizando que a Virgem Maria é despenseira, distribuidora das graças de Deus. Este símbolo é ligado ä imagem de Nossa Senhora das Graças e tem o mesmo significado.
A coroa de Nossa Senhora Medianeira
A coroa de Nossa Senhora Medianeira simboliza que ela é Rainha do céu e da terra.
A túnica rosa de Nossa Senhora Medianeira
A túnica rosa de Nossa Senhora Medianeira simboliza a alegria da salvação que ela ajudou a trazer e a alegria das graças que ela transmite para a humanidade.
O manto marrom amarrado à cintura de Nossa Senhora Medianeira
O manto marrom amarrado à cintura de Nossa Senhora Medianeira simboliza que ela se coloca numa posição de serviço e humildade. O Marrom é a cor da humildade. Ao se tornar 'Medianeira', Nossa Senhora quer servir à humanidade, pois ela ama a todos e quer que todos recebam as graças maravilhosas que Deus tem reservadas para nós.
O sol e a lua aos pés de Nossa Senhora Medianeira
O sol e a lua simbolizam o tempo, ao contrário da eternidade. Aos pés de Nossa senhora significa que a Mediação de Maria acontece em favor de nós que ainda não estamos na eternidade com Deus. Quando estivermos lá, na visão da felicidade eterna, junto com Maria, não precisaremos mais desta mediação, mas teremos atingido o objetivo de nossas vidas e o objetivo das graças que a Virgem Maria transmite, que é chegar ao céu
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Arca da Nova Aliança
CANTAM OS ANJOS ARAUTOS DA ARCA
Para os judeus do primeiro século, o choque do Apocalipse foi certamente o relato de João no final do capítulo 11. É aí então que, após ouvir os toques das sete trombetas, João vê o templo no céu aberto (Ap 11,19) e, dentro dele, um milagre!- A Arca da Aliança.
Essa teria sido a notícia do milênio! A Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do antigo Israel, estava desaparecida havia seis séculos. Por volta de 587 a.C., o profeta Jeremias escondeu a arca, a fim de preservá-la da corrupção, quando os invasores babilônicos chegaram para destruir o Templo. Podemos ler essa história no segundo livro dos Macabeus:
No momento em que chegou, [Jeremias] descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia. Então, revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor com uma densa nuvem. (2Mc 2,5-8)
Quando Jeremias fala da "nuvem", ele quer dizer a shekinah, ou seja, a nuvem de glória, que envolvia a Arca da Aliança, a qual significava a presença de Deus. Dentro do templo de Salomão, a arca ocupava o Santo dos Santos. Na verdade, era a arca que fazia daquele lugar do santuário o mais sagrado de todos os lugares. A Arca da Aliança trazia as tábuas da Lei, nas quais o dedo de Deus havia escrito os dez mandamentos e um pouco do maná, o pão caído do céu que Deus havia dado ao seu povo durante sua permanência no deserto. Trazia também em seu interior a vara de Aarão, o símbolo de seu ofício sacerdotal. Feita de madeira de acácia, a arca tinha forma de uma caixa, coberta com ornamento de ouro e dois querubins esculpidos em suas extremidades. No topo da arca estava o propiciatório, sempre desobstruído. De pé diante da arca, dentro do Santo dos Santos*, ficava a menorah, um candelabro de sete braços. Contudo, os primeiros leitores judeus do Apocalipse sabiam desses detalhes só da história e da Tradição. Desde a época de Jeremias, o esconderijo da arca nunca tinha sido encontrado e a reconstrução do templo não contava com a arca em seu Santo dos Santos, nem com a shekinah, nem maná, nem querubins no propiciatório. Então, vem João dizendo ter visto a shekinah (a "glória de Deus", Ap 21,10-11.23) e o mais incrível de tudo, a Arca da Aliança.
MARIA TINHA UM PEQUENO CORDEIRO
Jesus prepara seus leitores de várias maneiras para o aparecimento da arca, a qual se revela, por exemplo, após o toque da sétima trombeta do sétimo anjo vingador, numa clara alusão ao Israel da Antiga Aliança. Na primeira e maior batalha que Israel lutou ao entrar na terra prometida, Deus ordenou ao povo eleito para carregar a arca à frente deles para o combate. Especificamente, a passagem de Apocalipse 15,11 ecoa Josué 6,13, que descreve como, durante seis dias, os quais antecederam a Batalha de Jericó, os sete sacerdotes guerreiros de Israel marcharam ao redor da cidade com a Arca da Aliança até que, no sétimo dia, eles tocassem as trombetas, fazendo ruir os muros da cidade. Para o antigo Israel, a arca foi, em certo sentido, a arma mais eficaz, pois representava a proteção e o poder de Deus Todo-Poderoso. Do mesmo modo, o Apocalipse mostra que o novo e celeste Israel também combate a batalha na presença da arca. Como seria de se esperar, a arca aparece com espetaculares efeitos especiais: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a Arca da sua Aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e granizo." (Ap 11,19) Imagine que você é um leitor do primeiro século, criado como um judeu. Você nunca viu a arca, mas a religião e toda a sua educação religiosa lhe ensinaram a todo instante sobre a restauração do templo. João a realiza antecipadamente, de modo que quase parece estar provocando seus leitores ao descrever o som e a fúria que acompanhavam a arca. A dramática tensão se torna quase insuportável. O leitor quer ver a arca como João a vê. O que se segue, então, é chocante! Nas nossas bíblias atuais, depois de todo esse desenvolvimento, a passagem, de repente, dá uma parada brusca como o capítulo 11 a conclui. João nos promete a arca, mas parece pôr em cena um final abrupto. Devemos ter em mente, entretanto, que as divisões em capítulos no Apocalipse, bem como em todos os livros bíblicos, é artificial, feita por escritores na Idade Média. Logo, não há capítulos no livro original de João; tudo era uma narrativa contínua. Assim, os efeitos especiais do final do capítulo 11 serviram como um prelúdio imediato para a imagem que, agora, aparece no capítulo 12. Podemos ler essas linhas juntos como que descrevendo um único evento: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca da sua aliança [...]. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz". (Ap 11,19-12,1-2). João nos mostra a Arca da Aliança... e é uma mulher. Na verdade, o Apocalipse pode parecer estranho. Anteriormente, nós vimos uma noiva que aparecia como uma cidade; agora, nós vemos a arca que aparece como uma mulher.
LINHAS DE BATALHA
Quem é essa mulher que é também uma arca? A maioria dos exegetas concorda que, num primeiro nível pelo menos, essa mulher (como a noiva de Apocalipse 19) representa a Igreja, que trabalha para dar à luz os seus filhos que creem, em todas as épocas. No entanto, é pouco provável que a mulher descrita por João seja, exclusive ou mesmo principalmente, para representar a Igreja. O cardeal Newman nos oferece um argumento convincente a respeito do porquê essa personificação não ser suficiente na leitura de Apocalipse 12. A imagem da mulher, segundo as Escrituras geralmente em uso, é muito ousada e importante para uma mera personificação. A Escritura não é muito favorável às alegorias. De fato, temos várias figuras lá, quando, por exemplo, nos fala do braço ou da espada de Deus; assim, também, quando fala de Jerusalém ou da Samaria, no feminino, ou da Igreja como uma noiva ou como a videira. Mas a Escritura não é muito dada a tecer idéias abstratas ou generalizações de atributos pessoais. Esse é o estilo clássico, e não o da Escritura. Xenofonte colocou Hércules entre a Virtude e o Vício, representados como mulheres. Realmente a mera personificação não parece corresponder ao método de São João durante todo o episódio com a mulher. Ele pode apresentar outros personagens fantásticos que podem assumir certas idéias, mas não há dúvida de que eles também são pessoas reais. Por exemplo, poucos exegetas questionam a identidade do "filho varão", a que a mulher dá à luz (Ap 12,5). Dado o contexto do Apocalipse, este menino só poderia ser Jesus Cristo. São João nos fala que a criança "há de reger todas as nações com cetro de ferro", e isso, claramente, é uma referência ao Salmo 2,9, que descreve o rei messiânico prometido por Deus. João também acrescenta que esta criança "foi arrebatada para Deus e para o seu trono", o que só pode se referir a Jesus que subiu aos céus. O que é verdade para o menino também o é para o seu inimigo, o dragão. João afirma claramente que o dragão não é apenas uma alegoria, mas uma pessoa específica: "a primitiva serpente, chamada Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro." (Ap 12,9) De modo semelhante, o aliado do dragão, a "besta saindo do mar" (Ap 13,1), também corresponde a uma pessoa real. Observemos essa besta horrível e, depois, olhemos para trás, na história, a fim de vermos o que João viu. A besta tem "dez chifres e sete cabeças, com dez coroas sobre os chifres e um nome blasfemo sobre sua cabeça". A partir do capítulo 7 do livro de Daniel, sabemos que, em profecia, tais bestas geralmente representavam dinastias. Por exemplo, os chifres são um símbolo comum do poder dinástico. Devemos nos perguntar, então: no primeiro século, que dinastia foi mais ameaçada pela ascensão do rei messiânico a partir da linhagem de Davi? O Evangelho de Mateus (cap. 2) deixa isso bem claro: era a dinastia de Herodes, a dos herodianos. Herodes, afinal, era um não judeu, nomeado pelos romanos para governar a Judéia. A fim de fortalecer o seu reinado ilegítimo, os romanos dizimaram todos os herdeiros da dinastia judaica dos Hasmoneus. E Herodes dizia ser rei em Jerusalém, indo bem longe ao reconstruir o templo em grande escala. Herodes, um líder carismático e ao mesmo tempo gentil, ganhou aos poucos o medo, a gratidão e até mesmo a adoração de seus súditos ao longo de seu sangrento reinado. O primeiro assassinato por ordem de Herodes foi o de sua própria esposa, depois o de seus três filhos, sua sogra, um cunhado e um tio, para não mencionarmos todas as crianças de Belém. Além disso, Herodes tinha influenciado os sacerdotes do templo durante seu governo. Afinal, a quem Herodes consultou quando soube do Messias recém-nascido? Sua dinastia era uma falsificação satânica da Casa de Davi. Como o verdadeiro herdeiro de Davi, Salomão, Herodes tinha construído o templo e mantinha várias mulheres. Com a ajuda dos romanos, ele também conseguiu unificar a terra de Israel como não ocorria havia séculos. A dinastia dos Herodes se tornaria, para eles mesmos, o maior obstáculo à verdadeira restauração do reino de Davi. Sete Herodes governaram após seu patriarca e fundador, Antípatro, e havia dez Césares na linha imperial de Roma, desde Júlio César até Vespasiano. A besta com dez chifres e sete cabeças corresponde curiosamente aos sete Herodes coroados que governaram apoiados pelo poder da dinastia dos dez Césares. Afirmar que Apocalipse 12 é um exercício de personificação seria uma simplificação grosseira. A visão de João, embora rica em simbolismo, descreve uma história real com pessoas reais, embora numa perspectiva celestial.
MAIS DO QUE UMA MULHER
João descreve as lutas em torno do nascimento e da missão do Messias. Simbolicamente, ele mostra quais papéis teriam Satanás, os Césares e os Herodes. No entanto, ainda na peça central de Apocalipse 12, o elemento mais proeminente é a Mulher, que é a Arca da Aliança. Se ela é mais do que a encarnação de uma idéia, então quem é ela? A Tradição nos diz que ela é a mesma pessoa a quem Jesus chama de "mulher" no Evangelho de João, a reprise daquela pessoa que Adão chama "mulher" no Jardim do Éden. Como no início desse Evangelho, esse episódio do Apocalipse evoca repetidamente o Protoevangelho de Gênesis. A primeira pista é que João, tanto no Apocalipse quanto no Evangelho, nunca revela o nome dessa pessoa; refere-se a ela apelas pelo nome que Adão deu a Eva no paraíso: ela é "mulher". No mesmo capítulo do Apocalipse, um pouco adiante, aprendemos que, como Eva era a "mãe de todos os viventes" (Gn 3,20), assim também a mulher da visão de João é mãe não simplesmente do "menino", mas de todo "o resto de sua descendência", mais semelhantes "àqueles que guardam os mandamentos de Deus e dão testemunho de Jesus". (Ap 12,17) Sua prole, então, são todos aqueles que têm nova vida em Jesus Cristo. A nova Eva cumpre a antiga promessa de ser, de modo perfeito, a mãe de todos os viventes. Contudo, a referência mais explícita do Apocalipse em relação ao Protoevangelho é a figura do dragão, a quem João identifica claramente como a "primitiva serpente" do Gênesis, "o sedutor do mundo inteiro" 9Ap 12,9; ver Gn 3,13). O conflito que se segue, então, entre o dragão e o filho cumpre fielmente a promessa de Gênesis 3,15 quando Deus jurou colocar "inimizade" entre a serpente e "a mulher; entre a tua descendência e a dela". E a angústia da entrega da mulher parece que vem em cumprimento das palavras de Deus a Eva: "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores..." (Gn 3,16) Claramente, João pretende relacionar Eva, a mãe de todos os viventes, com a mulher do Apocalipse, a nova Eva, a pessoa que ele identifica como "mulher" no Evangelho.
MARIA MARIA, UM RELICÁRIO?
Ficamos, no entanto, com a questão de como essa mulher pode ser a reverenciada Arca da Aliança. Para entendermos isso, precisamos primeiramente considerar o que fez a arca ser tão santa. Não foi a madeira de acácia ou os ornamentos de ouro. Nem foram as figuras esculpidas dos anjos. A arca continha a aliança, o que a fez se tornar santa. Dentro dessa caixa de ouro estavam os dez mandamentos, a Palavra de Deus escrita pelo dedo de Deus; o maná, o pão milagroso enviado por Deus para alimentar seu povo no deserto; e o cajado sacerdotal de Aarão. O que quer que tenha feito a arca ser santa, fez Maria ser ainda mais santa. Vejamos. Se a primeira arca continha a Palavra de Deus na pedra, o corpo de Maria continha a Palavra de Deus encarnada. Se a primeira arca continha o pão milagroso do céu, em seu corpo Maria tinha o próprio Pão da Vida que vence a morte para sempre. Se a primeira arca continha o cajado do primeiro sacerdote do povo, o corpo de Maria continha a própria pessoa do sacerdote eterno, Jesus Cristo. O que João viu no templo celeste era muito maior do que a arca da antiga Aliança, a arca que tinha irradiado a nuvem de glória antes da menorah, no coração do antigo templo de Israel. João viu a arca da nova Aliança, o vaso escolhido para levar a aliança de Deus ao mundo de uma vez por todas.
OBJEÇÕES NEGADAS?
Os primeiros Padres da Igreja deram forte testemunho dessa identificação de Maria com a Arca da Aliança. Ainda assim, alguns exegetas levantaram algumas objeções, às quais os Padres responderam. Por exemplo, alguns se opuseram quanto às dores de parto da mulher, que pareciam contradizer à longa Tradição de que Maria teria dado à luz sem as dores do parto. Muitos cristãos acreditam que, uma vez que Maria foi concebida sem o pecado original, ela estaria isenta das maldições de Gênesis 3,16; portanto, não sentiria qualquer sofrimento no parto. Ora, o sofrimento de uma mulher não necessariamente está relacionado às dores físicas do parto. Em outras passagens do Novo Testamento, São Paulo usa a dor do parto como uma metáfora para o sofrimento espiritual, para o sofrimento em geral, ou mesmo para o longo tempo de sofrimento do mundo na expectativa da Redenção no fim dos tempos (Gl 4,19; Rm 8,22). O sofrimento da mulher no Apocalipse poderia representar o desejo de trazer Cristo ao mundo; ou poderia representar os sofrimentos espirituais como o preço da maternidade de Maria. Outros exegetas se mostram preocupados com a menção aos "outros filhos" da mulher, pois tal ponto contradiz o dogma da Virgindade Perpétua de Maria. Afinal, como ela poderia ter outros filhos se ela permaneceu sempre virgem? No entanto, de novo, esses filhos não precisam ser seus filhos físicos. Os Apóstolos frequentemente falam de si próprios como "pais" das primeiras gerações de cristãos (ver 1Cor 4,15). A "outra prole" de Apocalipse 12 são certamente "aqueles que carregam o testemunho de Jesus" e, então, se tornam Seus irmãos, partilhando o mesmo Pai do céu e Sua mãe. Ainda outros são simplesmente obscurecidos pelos detalhes do relato de João, por exemplo, quando à mulher foram "dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto [...] fora do alcance da cabeça da serpente" 9Ap 12,14). Tais passagens acreditam que representam a proteção divina dada a Maria contra o pecado e a influência diabólica. Outros vêem como uma narrativa estilizada da fuga para o Egito (Mt 2,13-15), para onde a Sagrada Família foi impulsionada pela besta de Herodes.
SUBINDO AS MONTANHAS
A maior dificuldade para os exegetas, no entanto, parece ser a singularidade aparente da visão tipológica de João no Apocalipse. Afinal, onde mais Maria é chamada de a Arca da Aliança? Um estudo mais atento do Novo Testamento nos mostra que essa visão de João não era única; mas, mais explícita do que em outras passagens; porém, certamente, não a única. Com os livros de São João, os escritos de São Lucas são a outra grande mina de ouro da doutrina sobre Maria. É Lucas quem nos narra o episódio da anunciação do anjo a Maria, da visitação a sua prima Isabel, das circunstâncias miraculosas do nascimento de Jesus, da purificação da Virgem no templo, de sua busca por seu filho aos doze anos e de sua presença entre os Apóstolos no primeiro Pentecostes. Lucas era um artista literário meticuloso que poderia alegar a vantagem adicional de ter o Espírito Santo como seu coautor. Ao longo dos séculos, os estudiosos têm se maravilhado com a forma como o Evangelho de Lucas sutilmente faz um paralelo-chave com vários textos do Antigo Testamento. Um dos primeios exemplos em sua narrativa é a história da visitação de Maria a Isabel. A linguagem de Lucas parece ecoar a narração, no segundo livro de Samuel, das viagens de Davi ao trazer a Arca da Aliança para Jerusalém. A história começa com Davi que "levantou-se e foi" (2Sm 6,2). No relato da visitação, Lucas inicia com as mesmas palavras: Maria "levantou-se e foi" (1,39). Em suas viagens, então, tanto Maria quanto Davi ultrapassaram a região montanhosa de Judá. Davi reconhece a sua indignidade com as palavras: "Como pode que a arca do Senhor venha me visitar?" (2Sm 6,9). Palavras semelhantes ecoam quando Maria se aproxima de sua prima Isabel: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha me visitar?" (Lc 1,43). Note aqui que a frase é quase idêntica, a não ser que a "arca" é substituída por "mãe". Lemos ainda que Davi "dançou" de alegria na presença da arca (2Sm 6,14.16), e nós encontramos expressão similar usada para descrever o pulo da criança no ventre de Isabel quando Maria se aproximou (Lc 1,44). Por fim, a arca permaneceu na região montanhosa por três meses (2Sm 6,11), o mesmo período de tempo que Maria passou com Isabel (Lc 1,56). No entanto, por que Lucas é tão profundo nesses acontecimentos? Por que não somente dizer que a Virgem Santíssima é um tipo bíblico ou o cumprimento da arca? O cardeal Newman abordou essa questão de uma forma interessante: "Às vezes, nos perguntam por que os escritores sagrados não mencionaram a grandeza de Nossa Senhora. Eu respondo: ela estava ou poderia ainda estar viva, quando os Apóstolos e Evangelistas escreveram sobre ela. Havia um único livro da Escritura que, com certeza, foi escrito depois de sua morte e este livro (o Apocalipse) o fez, posso assim dizer, canonizando-a e coroando-a." Será que Lucas, com seu jeito calmo, foi apresentando Maria para ser a Arca da Aliança? A prova é muito evidente para explicar a credibilidade de outra forma.
OS PRIMEIROS INTÉRPRETES
A mulher do Apocalipse é a Arca da Aliança no templo celeste; e aquela mulher é a Virgem Maria. Contudo, isso não exclui outras leituras de Apocalipse 12. A Escritura, afinal, não é um código a ser decifrado, mas um mistério que nós nunca poderemos sondar plenamente. No século IV, por exemplo, Santo Ambrósio viu a mulher claramente como a Virgem Maria, "porque ela é Mãe da Igreja, pois deu à luz Àquele que é a Cabeça da Igreja"; e ainda viu a mulher do Apocalipse como uma alegoria da própria Igreja. Santo Efrém da Síria chegou à mesma conclusão, sem temer qualquer contradição: "A Virgem Maria é, mais uma vez, a figura da Igreja... Vamos chamar a Igreja pelo Nome de Maria, pois ela é digna de um nome duplo." Santo Agostinho também considerou que a mulher do Apocalipse "significa Maria, que, sendo impecável, trouxe adiante, a nossa Cabeça impecável. Trouxe também diante de si mesma a figura da Santa Igreja, para que, como Maria trouxe à luz um filho permanecendo virgem, assim também a Igreja deve, durante os séculos, vir trazendo à luz seus membros, e ainda sem perder seu estado de integridade." Como Maria gerou Cristo para o mundo, assim, a Igreja gera todos os que creem "outros Cristo", a cada geração. Como a Igreja se torna mãe dos crentes pelo Batismo, assim Maria se torna mãe dos crentes como irmãos de Cristo. A Igreja, nas palavras de um recente estudioso, "reproduz o mistério de Maria". Podemos ler todas essas interpretações como uma marcante passagem de Santo Irineu, que encontramos no último capítulo. Para o menino é, sem dúvida, "o filho puro abrindo impecavelmente o ventre puro que regenera os homens para Deus". E os "outros filhos", vemos em Apocalipse, são certamente aqueles que são regenerados para Deus, ou seja, aqueles que são nascidos do mesmo ventre como Jesus Cristo. Lido à luz dos Padres, Apocalipse 12 pode iluminar a nossa leitura posterior de todas as passagens do Novo Testamento que descrevem os cristãos como irmãos de Cristo. A palavra grega para "irmão", adelphos, literalmente significa "do mesmo ventre". De João a Irineu até Efrém e Agostinho, os primeiros cristãos acreditaram que esse ventre pertencia a Maria. A passagem se revela extremamente rica. Outros Padres viram a mulher do Apocalipse como um símbolo de Israel, a qual deu à luz o Messias; ou como o povo de Deus através de todas as épocas; ou como o império de Davi, definido em contraste aos dos Herodes e dos Césares. Ela e todas essas coisas, mesmo quando é a Arca da Aliança. Enquanto cada uma dessas interpretações é suficiente de uma forma primária ou secundária, nenhuma pode cumprir o significado principal do texto. Todas essas leituras simbólicas apontam, para além de si mesmas, a um significado primordial que é o histórico-literal. Ou, como o Cardeal Newman colocou: "O santo Apóstolo não teria falado da Igreja sob esta imagem em particular, a menos que tivesse existido uma Bem-Aventurada Virgem Maria, que foi elevada às alturas e objeto de veneração de todos os fiéis." Nas palavras de outro exegeta, a mulher do Apocalipse deve ser "uma pessoa concreta que engloba um coletivo". Além disso, o significado primário para a mulher, bem como para o seu menino, deve pertencer ao indivíduo, à pessoa histórica, Santíssima Virgem Maria, que ao mesmo tempo tornou-se mãe de Cristo e dos membros do Seu corpo, a Igreja.
Dr Scott Hahn, Salve, Santa Rainha. São Paulo: Cléofas, 2013. p.47-59
Para os judeus do primeiro século, o choque do Apocalipse foi certamente o relato de João no final do capítulo 11. É aí então que, após ouvir os toques das sete trombetas, João vê o templo no céu aberto (Ap 11,19) e, dentro dele, um milagre!- A Arca da Aliança.
Essa teria sido a notícia do milênio! A Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do antigo Israel, estava desaparecida havia seis séculos. Por volta de 587 a.C., o profeta Jeremias escondeu a arca, a fim de preservá-la da corrupção, quando os invasores babilônicos chegaram para destruir o Templo. Podemos ler essa história no segundo livro dos Macabeus:
No momento em que chegou, [Jeremias] descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia. Então, revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor com uma densa nuvem. (2Mc 2,5-8)
Quando Jeremias fala da "nuvem", ele quer dizer a shekinah, ou seja, a nuvem de glória, que envolvia a Arca da Aliança, a qual significava a presença de Deus. Dentro do templo de Salomão, a arca ocupava o Santo dos Santos. Na verdade, era a arca que fazia daquele lugar do santuário o mais sagrado de todos os lugares. A Arca da Aliança trazia as tábuas da Lei, nas quais o dedo de Deus havia escrito os dez mandamentos e um pouco do maná, o pão caído do céu que Deus havia dado ao seu povo durante sua permanência no deserto. Trazia também em seu interior a vara de Aarão, o símbolo de seu ofício sacerdotal. Feita de madeira de acácia, a arca tinha forma de uma caixa, coberta com ornamento de ouro e dois querubins esculpidos em suas extremidades. No topo da arca estava o propiciatório, sempre desobstruído. De pé diante da arca, dentro do Santo dos Santos*, ficava a menorah, um candelabro de sete braços. Contudo, os primeiros leitores judeus do Apocalipse sabiam desses detalhes só da história e da Tradição. Desde a época de Jeremias, o esconderijo da arca nunca tinha sido encontrado e a reconstrução do templo não contava com a arca em seu Santo dos Santos, nem com a shekinah, nem maná, nem querubins no propiciatório. Então, vem João dizendo ter visto a shekinah (a "glória de Deus", Ap 21,10-11.23) e o mais incrível de tudo, a Arca da Aliança.
MARIA TINHA UM PEQUENO CORDEIRO
Jesus prepara seus leitores de várias maneiras para o aparecimento da arca, a qual se revela, por exemplo, após o toque da sétima trombeta do sétimo anjo vingador, numa clara alusão ao Israel da Antiga Aliança. Na primeira e maior batalha que Israel lutou ao entrar na terra prometida, Deus ordenou ao povo eleito para carregar a arca à frente deles para o combate. Especificamente, a passagem de Apocalipse 15,11 ecoa Josué 6,13, que descreve como, durante seis dias, os quais antecederam a Batalha de Jericó, os sete sacerdotes guerreiros de Israel marcharam ao redor da cidade com a Arca da Aliança até que, no sétimo dia, eles tocassem as trombetas, fazendo ruir os muros da cidade. Para o antigo Israel, a arca foi, em certo sentido, a arma mais eficaz, pois representava a proteção e o poder de Deus Todo-Poderoso. Do mesmo modo, o Apocalipse mostra que o novo e celeste Israel também combate a batalha na presença da arca. Como seria de se esperar, a arca aparece com espetaculares efeitos especiais: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a Arca da sua Aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e granizo." (Ap 11,19) Imagine que você é um leitor do primeiro século, criado como um judeu. Você nunca viu a arca, mas a religião e toda a sua educação religiosa lhe ensinaram a todo instante sobre a restauração do templo. João a realiza antecipadamente, de modo que quase parece estar provocando seus leitores ao descrever o som e a fúria que acompanhavam a arca. A dramática tensão se torna quase insuportável. O leitor quer ver a arca como João a vê. O que se segue, então, é chocante! Nas nossas bíblias atuais, depois de todo esse desenvolvimento, a passagem, de repente, dá uma parada brusca como o capítulo 11 a conclui. João nos promete a arca, mas parece pôr em cena um final abrupto. Devemos ter em mente, entretanto, que as divisões em capítulos no Apocalipse, bem como em todos os livros bíblicos, é artificial, feita por escritores na Idade Média. Logo, não há capítulos no livro original de João; tudo era uma narrativa contínua. Assim, os efeitos especiais do final do capítulo 11 serviram como um prelúdio imediato para a imagem que, agora, aparece no capítulo 12. Podemos ler essas linhas juntos como que descrevendo um único evento: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca da sua aliança [...]. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz". (Ap 11,19-12,1-2). João nos mostra a Arca da Aliança... e é uma mulher. Na verdade, o Apocalipse pode parecer estranho. Anteriormente, nós vimos uma noiva que aparecia como uma cidade; agora, nós vemos a arca que aparece como uma mulher.
LINHAS DE BATALHA
Quem é essa mulher que é também uma arca? A maioria dos exegetas concorda que, num primeiro nível pelo menos, essa mulher (como a noiva de Apocalipse 19) representa a Igreja, que trabalha para dar à luz os seus filhos que creem, em todas as épocas. No entanto, é pouco provável que a mulher descrita por João seja, exclusive ou mesmo principalmente, para representar a Igreja. O cardeal Newman nos oferece um argumento convincente a respeito do porquê essa personificação não ser suficiente na leitura de Apocalipse 12. A imagem da mulher, segundo as Escrituras geralmente em uso, é muito ousada e importante para uma mera personificação. A Escritura não é muito favorável às alegorias. De fato, temos várias figuras lá, quando, por exemplo, nos fala do braço ou da espada de Deus; assim, também, quando fala de Jerusalém ou da Samaria, no feminino, ou da Igreja como uma noiva ou como a videira. Mas a Escritura não é muito dada a tecer idéias abstratas ou generalizações de atributos pessoais. Esse é o estilo clássico, e não o da Escritura. Xenofonte colocou Hércules entre a Virtude e o Vício, representados como mulheres. Realmente a mera personificação não parece corresponder ao método de São João durante todo o episódio com a mulher. Ele pode apresentar outros personagens fantásticos que podem assumir certas idéias, mas não há dúvida de que eles também são pessoas reais. Por exemplo, poucos exegetas questionam a identidade do "filho varão", a que a mulher dá à luz (Ap 12,5). Dado o contexto do Apocalipse, este menino só poderia ser Jesus Cristo. São João nos fala que a criança "há de reger todas as nações com cetro de ferro", e isso, claramente, é uma referência ao Salmo 2,9, que descreve o rei messiânico prometido por Deus. João também acrescenta que esta criança "foi arrebatada para Deus e para o seu trono", o que só pode se referir a Jesus que subiu aos céus. O que é verdade para o menino também o é para o seu inimigo, o dragão. João afirma claramente que o dragão não é apenas uma alegoria, mas uma pessoa específica: "a primitiva serpente, chamada Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro." (Ap 12,9) De modo semelhante, o aliado do dragão, a "besta saindo do mar" (Ap 13,1), também corresponde a uma pessoa real. Observemos essa besta horrível e, depois, olhemos para trás, na história, a fim de vermos o que João viu. A besta tem "dez chifres e sete cabeças, com dez coroas sobre os chifres e um nome blasfemo sobre sua cabeça". A partir do capítulo 7 do livro de Daniel, sabemos que, em profecia, tais bestas geralmente representavam dinastias. Por exemplo, os chifres são um símbolo comum do poder dinástico. Devemos nos perguntar, então: no primeiro século, que dinastia foi mais ameaçada pela ascensão do rei messiânico a partir da linhagem de Davi? O Evangelho de Mateus (cap. 2) deixa isso bem claro: era a dinastia de Herodes, a dos herodianos. Herodes, afinal, era um não judeu, nomeado pelos romanos para governar a Judéia. A fim de fortalecer o seu reinado ilegítimo, os romanos dizimaram todos os herdeiros da dinastia judaica dos Hasmoneus. E Herodes dizia ser rei em Jerusalém, indo bem longe ao reconstruir o templo em grande escala. Herodes, um líder carismático e ao mesmo tempo gentil, ganhou aos poucos o medo, a gratidão e até mesmo a adoração de seus súditos ao longo de seu sangrento reinado. O primeiro assassinato por ordem de Herodes foi o de sua própria esposa, depois o de seus três filhos, sua sogra, um cunhado e um tio, para não mencionarmos todas as crianças de Belém. Além disso, Herodes tinha influenciado os sacerdotes do templo durante seu governo. Afinal, a quem Herodes consultou quando soube do Messias recém-nascido? Sua dinastia era uma falsificação satânica da Casa de Davi. Como o verdadeiro herdeiro de Davi, Salomão, Herodes tinha construído o templo e mantinha várias mulheres. Com a ajuda dos romanos, ele também conseguiu unificar a terra de Israel como não ocorria havia séculos. A dinastia dos Herodes se tornaria, para eles mesmos, o maior obstáculo à verdadeira restauração do reino de Davi. Sete Herodes governaram após seu patriarca e fundador, Antípatro, e havia dez Césares na linha imperial de Roma, desde Júlio César até Vespasiano. A besta com dez chifres e sete cabeças corresponde curiosamente aos sete Herodes coroados que governaram apoiados pelo poder da dinastia dos dez Césares. Afirmar que Apocalipse 12 é um exercício de personificação seria uma simplificação grosseira. A visão de João, embora rica em simbolismo, descreve uma história real com pessoas reais, embora numa perspectiva celestial.
MAIS DO QUE UMA MULHER
João descreve as lutas em torno do nascimento e da missão do Messias. Simbolicamente, ele mostra quais papéis teriam Satanás, os Césares e os Herodes. No entanto, ainda na peça central de Apocalipse 12, o elemento mais proeminente é a Mulher, que é a Arca da Aliança. Se ela é mais do que a encarnação de uma idéia, então quem é ela? A Tradição nos diz que ela é a mesma pessoa a quem Jesus chama de "mulher" no Evangelho de João, a reprise daquela pessoa que Adão chama "mulher" no Jardim do Éden. Como no início desse Evangelho, esse episódio do Apocalipse evoca repetidamente o Protoevangelho de Gênesis. A primeira pista é que João, tanto no Apocalipse quanto no Evangelho, nunca revela o nome dessa pessoa; refere-se a ela apelas pelo nome que Adão deu a Eva no paraíso: ela é "mulher". No mesmo capítulo do Apocalipse, um pouco adiante, aprendemos que, como Eva era a "mãe de todos os viventes" (Gn 3,20), assim também a mulher da visão de João é mãe não simplesmente do "menino", mas de todo "o resto de sua descendência", mais semelhantes "àqueles que guardam os mandamentos de Deus e dão testemunho de Jesus". (Ap 12,17) Sua prole, então, são todos aqueles que têm nova vida em Jesus Cristo. A nova Eva cumpre a antiga promessa de ser, de modo perfeito, a mãe de todos os viventes. Contudo, a referência mais explícita do Apocalipse em relação ao Protoevangelho é a figura do dragão, a quem João identifica claramente como a "primitiva serpente" do Gênesis, "o sedutor do mundo inteiro" 9Ap 12,9; ver Gn 3,13). O conflito que se segue, então, entre o dragão e o filho cumpre fielmente a promessa de Gênesis 3,15 quando Deus jurou colocar "inimizade" entre a serpente e "a mulher; entre a tua descendência e a dela". E a angústia da entrega da mulher parece que vem em cumprimento das palavras de Deus a Eva: "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores..." (Gn 3,16) Claramente, João pretende relacionar Eva, a mãe de todos os viventes, com a mulher do Apocalipse, a nova Eva, a pessoa que ele identifica como "mulher" no Evangelho.
MARIA MARIA, UM RELICÁRIO?
Ficamos, no entanto, com a questão de como essa mulher pode ser a reverenciada Arca da Aliança. Para entendermos isso, precisamos primeiramente considerar o que fez a arca ser tão santa. Não foi a madeira de acácia ou os ornamentos de ouro. Nem foram as figuras esculpidas dos anjos. A arca continha a aliança, o que a fez se tornar santa. Dentro dessa caixa de ouro estavam os dez mandamentos, a Palavra de Deus escrita pelo dedo de Deus; o maná, o pão milagroso enviado por Deus para alimentar seu povo no deserto; e o cajado sacerdotal de Aarão. O que quer que tenha feito a arca ser santa, fez Maria ser ainda mais santa. Vejamos. Se a primeira arca continha a Palavra de Deus na pedra, o corpo de Maria continha a Palavra de Deus encarnada. Se a primeira arca continha o pão milagroso do céu, em seu corpo Maria tinha o próprio Pão da Vida que vence a morte para sempre. Se a primeira arca continha o cajado do primeiro sacerdote do povo, o corpo de Maria continha a própria pessoa do sacerdote eterno, Jesus Cristo. O que João viu no templo celeste era muito maior do que a arca da antiga Aliança, a arca que tinha irradiado a nuvem de glória antes da menorah, no coração do antigo templo de Israel. João viu a arca da nova Aliança, o vaso escolhido para levar a aliança de Deus ao mundo de uma vez por todas.
OBJEÇÕES NEGADAS?
Os primeiros Padres da Igreja deram forte testemunho dessa identificação de Maria com a Arca da Aliança. Ainda assim, alguns exegetas levantaram algumas objeções, às quais os Padres responderam. Por exemplo, alguns se opuseram quanto às dores de parto da mulher, que pareciam contradizer à longa Tradição de que Maria teria dado à luz sem as dores do parto. Muitos cristãos acreditam que, uma vez que Maria foi concebida sem o pecado original, ela estaria isenta das maldições de Gênesis 3,16; portanto, não sentiria qualquer sofrimento no parto. Ora, o sofrimento de uma mulher não necessariamente está relacionado às dores físicas do parto. Em outras passagens do Novo Testamento, São Paulo usa a dor do parto como uma metáfora para o sofrimento espiritual, para o sofrimento em geral, ou mesmo para o longo tempo de sofrimento do mundo na expectativa da Redenção no fim dos tempos (Gl 4,19; Rm 8,22). O sofrimento da mulher no Apocalipse poderia representar o desejo de trazer Cristo ao mundo; ou poderia representar os sofrimentos espirituais como o preço da maternidade de Maria. Outros exegetas se mostram preocupados com a menção aos "outros filhos" da mulher, pois tal ponto contradiz o dogma da Virgindade Perpétua de Maria. Afinal, como ela poderia ter outros filhos se ela permaneceu sempre virgem? No entanto, de novo, esses filhos não precisam ser seus filhos físicos. Os Apóstolos frequentemente falam de si próprios como "pais" das primeiras gerações de cristãos (ver 1Cor 4,15). A "outra prole" de Apocalipse 12 são certamente "aqueles que carregam o testemunho de Jesus" e, então, se tornam Seus irmãos, partilhando o mesmo Pai do céu e Sua mãe. Ainda outros são simplesmente obscurecidos pelos detalhes do relato de João, por exemplo, quando à mulher foram "dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto [...] fora do alcance da cabeça da serpente" 9Ap 12,14). Tais passagens acreditam que representam a proteção divina dada a Maria contra o pecado e a influência diabólica. Outros vêem como uma narrativa estilizada da fuga para o Egito (Mt 2,13-15), para onde a Sagrada Família foi impulsionada pela besta de Herodes.
SUBINDO AS MONTANHAS
A maior dificuldade para os exegetas, no entanto, parece ser a singularidade aparente da visão tipológica de João no Apocalipse. Afinal, onde mais Maria é chamada de a Arca da Aliança? Um estudo mais atento do Novo Testamento nos mostra que essa visão de João não era única; mas, mais explícita do que em outras passagens; porém, certamente, não a única. Com os livros de São João, os escritos de São Lucas são a outra grande mina de ouro da doutrina sobre Maria. É Lucas quem nos narra o episódio da anunciação do anjo a Maria, da visitação a sua prima Isabel, das circunstâncias miraculosas do nascimento de Jesus, da purificação da Virgem no templo, de sua busca por seu filho aos doze anos e de sua presença entre os Apóstolos no primeiro Pentecostes. Lucas era um artista literário meticuloso que poderia alegar a vantagem adicional de ter o Espírito Santo como seu coautor. Ao longo dos séculos, os estudiosos têm se maravilhado com a forma como o Evangelho de Lucas sutilmente faz um paralelo-chave com vários textos do Antigo Testamento. Um dos primeios exemplos em sua narrativa é a história da visitação de Maria a Isabel. A linguagem de Lucas parece ecoar a narração, no segundo livro de Samuel, das viagens de Davi ao trazer a Arca da Aliança para Jerusalém. A história começa com Davi que "levantou-se e foi" (2Sm 6,2). No relato da visitação, Lucas inicia com as mesmas palavras: Maria "levantou-se e foi" (1,39). Em suas viagens, então, tanto Maria quanto Davi ultrapassaram a região montanhosa de Judá. Davi reconhece a sua indignidade com as palavras: "Como pode que a arca do Senhor venha me visitar?" (2Sm 6,9). Palavras semelhantes ecoam quando Maria se aproxima de sua prima Isabel: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha me visitar?" (Lc 1,43). Note aqui que a frase é quase idêntica, a não ser que a "arca" é substituída por "mãe". Lemos ainda que Davi "dançou" de alegria na presença da arca (2Sm 6,14.16), e nós encontramos expressão similar usada para descrever o pulo da criança no ventre de Isabel quando Maria se aproximou (Lc 1,44). Por fim, a arca permaneceu na região montanhosa por três meses (2Sm 6,11), o mesmo período de tempo que Maria passou com Isabel (Lc 1,56). No entanto, por que Lucas é tão profundo nesses acontecimentos? Por que não somente dizer que a Virgem Santíssima é um tipo bíblico ou o cumprimento da arca? O cardeal Newman abordou essa questão de uma forma interessante: "Às vezes, nos perguntam por que os escritores sagrados não mencionaram a grandeza de Nossa Senhora. Eu respondo: ela estava ou poderia ainda estar viva, quando os Apóstolos e Evangelistas escreveram sobre ela. Havia um único livro da Escritura que, com certeza, foi escrito depois de sua morte e este livro (o Apocalipse) o fez, posso assim dizer, canonizando-a e coroando-a." Será que Lucas, com seu jeito calmo, foi apresentando Maria para ser a Arca da Aliança? A prova é muito evidente para explicar a credibilidade de outra forma.
OS PRIMEIROS INTÉRPRETES
A mulher do Apocalipse é a Arca da Aliança no templo celeste; e aquela mulher é a Virgem Maria. Contudo, isso não exclui outras leituras de Apocalipse 12. A Escritura, afinal, não é um código a ser decifrado, mas um mistério que nós nunca poderemos sondar plenamente. No século IV, por exemplo, Santo Ambrósio viu a mulher claramente como a Virgem Maria, "porque ela é Mãe da Igreja, pois deu à luz Àquele que é a Cabeça da Igreja"; e ainda viu a mulher do Apocalipse como uma alegoria da própria Igreja. Santo Efrém da Síria chegou à mesma conclusão, sem temer qualquer contradição: "A Virgem Maria é, mais uma vez, a figura da Igreja... Vamos chamar a Igreja pelo Nome de Maria, pois ela é digna de um nome duplo." Santo Agostinho também considerou que a mulher do Apocalipse "significa Maria, que, sendo impecável, trouxe adiante, a nossa Cabeça impecável. Trouxe também diante de si mesma a figura da Santa Igreja, para que, como Maria trouxe à luz um filho permanecendo virgem, assim também a Igreja deve, durante os séculos, vir trazendo à luz seus membros, e ainda sem perder seu estado de integridade." Como Maria gerou Cristo para o mundo, assim, a Igreja gera todos os que creem "outros Cristo", a cada geração. Como a Igreja se torna mãe dos crentes pelo Batismo, assim Maria se torna mãe dos crentes como irmãos de Cristo. A Igreja, nas palavras de um recente estudioso, "reproduz o mistério de Maria". Podemos ler todas essas interpretações como uma marcante passagem de Santo Irineu, que encontramos no último capítulo. Para o menino é, sem dúvida, "o filho puro abrindo impecavelmente o ventre puro que regenera os homens para Deus". E os "outros filhos", vemos em Apocalipse, são certamente aqueles que são regenerados para Deus, ou seja, aqueles que são nascidos do mesmo ventre como Jesus Cristo. Lido à luz dos Padres, Apocalipse 12 pode iluminar a nossa leitura posterior de todas as passagens do Novo Testamento que descrevem os cristãos como irmãos de Cristo. A palavra grega para "irmão", adelphos, literalmente significa "do mesmo ventre". De João a Irineu até Efrém e Agostinho, os primeiros cristãos acreditaram que esse ventre pertencia a Maria. A passagem se revela extremamente rica. Outros Padres viram a mulher do Apocalipse como um símbolo de Israel, a qual deu à luz o Messias; ou como o povo de Deus através de todas as épocas; ou como o império de Davi, definido em contraste aos dos Herodes e dos Césares. Ela e todas essas coisas, mesmo quando é a Arca da Aliança. Enquanto cada uma dessas interpretações é suficiente de uma forma primária ou secundária, nenhuma pode cumprir o significado principal do texto. Todas essas leituras simbólicas apontam, para além de si mesmas, a um significado primordial que é o histórico-literal. Ou, como o Cardeal Newman colocou: "O santo Apóstolo não teria falado da Igreja sob esta imagem em particular, a menos que tivesse existido uma Bem-Aventurada Virgem Maria, que foi elevada às alturas e objeto de veneração de todos os fiéis." Nas palavras de outro exegeta, a mulher do Apocalipse deve ser "uma pessoa concreta que engloba um coletivo". Além disso, o significado primário para a mulher, bem como para o seu menino, deve pertencer ao indivíduo, à pessoa histórica, Santíssima Virgem Maria, que ao mesmo tempo tornou-se mãe de Cristo e dos membros do Seu corpo, a Igreja.
Dr Scott Hahn, Salve, Santa Rainha. São Paulo: Cléofas, 2013. p.47-59
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Reflexões sobre ser respeito ao Outro
Sobre a questão do "QueerMuseu" tenho algumas angústias e perplexidades acerca de como as coisas se deram, como foram divulgadas e, acima de tudo, do nosso tempo como um todo e da distância entre aquilo que dizemos querer e aquilo que de fato fazemos...
Viver em uma sociedade plural é um desafio, reconhecer e assumir que o outro é outro e é irredutível a mim e as minhas representações de mundo pode causar medo e assombro, mas, sem dúvida, acredito que por mais que nos desaloje, esse é o melhor caminho!
Todos nós tendemos a dizer que amamos a diversidade de ideias e que a diferença acrescenta. Há muito de verdade nisso. Até porque todos nós queremos ser respeitados em nossas diferenças e singularidades. Contudo, a coisa complica quando nos deparamos com alguém que pensa de forma diametralmente oposta à nossa. Quando aquilo para nós é sagrado para o outro é profano e aquilo que para mim é profano ou demonizado para o outro é sagrado! Aqui é difícil reconhecer a alteridade do outro, o seu direito a ter convicções como eu as tenho.
Nesse contexto, surgem os grandes empecilhos na administração das diferenças. No dia a dia, acabamos ignorando a maior parte dos casos e nos cercando daqueles que pensam como nós no que julgamos mais importante. E continuamos vivendo como se fôssemos nós os virtuosos, perfeitos, e considerando os outros coml os intolerantes, sujos, pecadores. Nos iludimos com a falsa certeza de que somos moralmente superiores e os outros ignorantes e alienados, apressamos em julgar e condenar e esquecemos as nossas próprias inconsistências e imoralidades.
Acontece que em alguns momentos os outros reivindicam o falso direito de anular nossa ipseidade como nós fazemos com eles e ofendem o que nós consideramos sagrado. Neste instante bradamos de indignação frente o desprezo daqueles que não compreendem como podemos agir de um modo que consideram tão ultrapassado, retrógrado e fundamentalista.
Penso que todos temos nossos sagrados e que não há ninguém que tolere tudo. Todos tem seus intoleráveis e para que a tolerância seja um direito de todos, algumas coisas realmente não podem ser toleradas. O relativismo é uma máscara que normalmente cai ardendo lugar à indignarão do mesmo modo que o mais dogmático dos dogmáticos quando vê suas crenças atacadas.
Nessa época de polarização, vivemos em um grande impasse, onde cada um tem a certeza do monopólio da virtude e sabe que as trevas estão do outro lado. A multiplicidade de crenças e práticas que convivem em um mesmo espaço é enorme. E nunca antes na história da humanidade foi assim. Claro que sempre existiram discordâncias, e das mais sérias, no entanto, havia um pano de fundo consensual no qual os conflitos podiam ser resolvidos, mas a globalização e a mundialização diluiram essa estrutura em uma sociedade completamente líquida, liquidificadora e liquidificante!
Infelizmente, a probabilidade para tal situação descambe na morte do diálogo e numa escalada da violência não é pequena. É só observarmos os discursos de ódio e intolerância que ganham espaço em diversas partes do mundo e em diversos segmentos sociais: na política,, na religião, nas relações entre Estados...
Gostaria de ter caminhos a propor. Não os tenho. Há dias que sou tomado de uma dor enorme. Isso ocorre principalmente quando vejo defensores da tolerância sendo intolerantes com os que são de fora de seu círculo ou quando profetas da crítica são pouco críticos com os que estão dentro de seu clube. Claro que eu devia saber que isso é normal, que é humano, mas não consigo deixar de me entristecer.
Não tenho caminhos. Tenho apenas meus pontos de partida. Tenho uma fé que julgo sagrada. Dela retiro a crença de que sem verdade não existe consenso sustentável e de que sem amor não há o desejo de criar pontes com aqueles de quem descordamos. Aprendi e acredito que amor e verdade são duas faces da mesma moeda, faces que não podem ser separadas sob a pena de se destruírem. Como disse alguém muito mais sábio que eu: "a verdade sem amor é desumana e o amor sem a verdade é falso".
Sei que é isso é pouco e que as vezes é difícil transformar esses princípios em ação concreta. Sei também que, na minha fraqueza, nem sempre sou coerente com eles ou consigo vivê-los do modo que deveria: as vezes sou machista, preconceituoso, inquisidor! São, como disse, meu ponto de partida para pensar o mundo e para tentar agir nele.
Hoje desejo explicitá-los apenas porque no caos em que vivemos talvez seja útil saber de onde cada um parte. Tocado pelo partir de alguém te convido a partir também em uma reflexão para a responsabilidade pelo outro...
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Deus está morto! Nietzsche e os niilismos
O homem louco – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’?” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §125
Talvez a frase mais famosa de Nietzsche seja também a mais incompreendida. Afinal, se ele era um ateu convicto, por que anunciar a morte de algo que não acreditava? Nietzsche possui motivos éticos e históricos para fazer tal declaração. E não é à toa que coloca palavras na boca de um “homem louco”, seu pensamento estava muito a frente de seu tempo:
O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã?” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §125
Através desta famosa afirmação Nietzsche procura condensar o espírito de sua época. O filósofo faz um diagnóstico da cultura de seu tempo e denuncia o niilismo em que a Europa estava mergulhada. A questão, para o filósofo alemão, não é se existe um Deus, nem se temos como provar a sua existência. Isso é pouco! O que Nietzsche afirma é que, independente disso, a influência da religião em nossas vidas é cada vez menor.
A Igreja, os mitos, as ideias, os ritos, a moral por trás da Teologia, vemos tudo isso enfraquecendo e desaparecendo pouco a pouco. Se extinguindo. Não só a religião, mas também a crença em seus valores metafísicos, a crença em suas verdades últimas, a crença no Bem, Belo e Verdadeiro. Não temos mais medo de deus, ele agora é velho e fraco, impotente, incapaz, criação de um povo escravo, sofredor, buscando refúgio.
O niilismo negativo dá conta de mostrar que a criação de um Deus só pode ser sintoma de uma vontade doente, triste, quase uma piada de mau gosto. Com o cristianismo, diz Nietzsche, o centro de gravidade é colocado fora da vida! Esta pérfida criação teve seus dias contados, e já vemos algo novo emergir.
Se digo: “Deus existe?”, não é um problema. Não disse o problema, onde ele está? Por que coloco tal questão? Que problema está por detrás disso? As pessoas querem colocar a questão: “acredito ou não em Deus?” Mas ninguém liga se acreditam ou não em Deus, o que conta é: por que dizem isso, a que problema isso responde? E que conceito de Deus elas vão fabricar. Se você não tiver nem conceito nem problema, você fica na besteira, não faz filosofia” – Deleuze, Abecedário
Nietzsche vai ao cerne do problema: Deus está morto como uma verdade eterna, como um ser que controla e conduz o mundo, como um pai bondoso que justifica os acontecimentos, como sentido último da existência, enfim, como uma ética, como um modo de vida, independente de sua existência ou não.
A secularização da civilização prova isso cada vez mais, todo o resto é besteira! Deus está morto como um grande ditador divino que exige obediência de seus servos, que dita leis e é responsável pela verdade absoluta e unificadora. Assistimos à ruína dos valores cristãos! Eles são agora um empecilho à existência! Deus não é mais o centro das atenções, não é uma questão importante para se tratar, ele já não é uma pergunta para a qual procuramos respostas, ele não é mais capaz de sustentar valores, e por isso deve morrer.
Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125
A morte dos ideais divinos, o início da morte desta doença chamada cristianismo é uma constatação nietzschiana. O sentido está perdido, a Verdade Eterna está acabada, de agora em diante precisamos encarar o caos do mundo à nossa frente, tudo é Vontade de Potência. Todo idealismo e platonismo estão se perdendo, por isso enfrentamos um grande perigo do niilismo: A morte de Deus deveria trazer uma liberdade nunca antes vista, mas estamos perdidos, não sabemos para onde ir nem o que fazer com isso.

Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmo nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125
A morte de Deus, levada às últimas consequências, é difícil de aceitar e pode facilmente levar ao desespero. Não sabemos o que fazer, como proceder, não sabemos mais o que é certo e errado sem um padre ou um livro velho para nos guiar. A falta de referencial externo é desesperador para o homem, ele fica aterrorizado diante do mundo, procura novos deuses para obedecer.
Vemos então como o homem passa então a buscar qualquer coisa para se segurar: razão, humanismo, ciência, Leis. Deus morreu, mas ainda velamos seu corpo em várias outras práticas que não encontram justificativa no próprio mundo, mas em outros lugares. Assim, continuamos louvando a valores divinos, mas agora mascarados pela casca humana, desmasiadamente humana. Matamos Deus, mas continuamos crentes! A fé virou razão, a dona da verdade é a Ciência, nossa nova religião é o progresso do homem, o bem comum. Deleuze chama este primeiro momento da morte de Deus de Niilismo Reativo, a falsa morte de Deus, quando nos dizemos ateus, mas inventamos novos ídolos para poder dobrar nossos joelhos tão acostumados a servirem.
Novas lutas – Depois que Buda morreu, sua sombra ainda foi mostrada numa caverna durante séculos – uma sombra imensa e terrível. Deus está morto; mas, tal como são os homens, durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será mostrada. – Quanto a nós – nós teremos que vencer também a sua sombra!” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §108
Não é à toa que a morte de Deus é anunciada àqueles que já não acreditam em Deus, uma plateia ateísta! Porque são eles que não possuem coragem o bastante parar responsabilizarem-se por seu ato! Alguns simplesmente não conseguem suportar tal liberdade, algumas pessoas se tornaram a tal ponto camelos, carregando valores, que se assustam só de pensar em um mundo tão desprovido de verdades. Uma vontade fraca precisa de mestres. Por isso a morte de Deus passa desapercebia até mesmo para os ateus! É isso que Nietzsche quer fazer notar! Precisamos levar este ato até o fim! Dar cabo de todas as suas consequências!
Mas como pode o homem matar Deus? A criação de um ser superior, que adoramos e prestamos obediência se eleva até os céus e volta como um meteoro, destruindo tudo à nossa volta: Deus e o homem devem morrer juntos! Se Deus está morto então o homem feito à sua imagem e semelhança também deve perecer! Se Deus é criação e testemunha da feiura humana, então ele é sintoma da doença da Vontade que o homem carrega! Mas o homem vaga pelo deserto sem saber o que fazer… nada mais vale a pena, nada mais tem valor! Ele não se sente dignos de seu ato! A dor de matar Deus é grande demais? Talvez… mas não há mais para onde voltar.
‘Eu venho cedo demais’, disse então, ‘não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem visto e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles o cometeram!'” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §125
A única alternativa frente a esse niilismo passivo é tomarmos as rédeas da situação e fazer deste niilismo um novo modo de vida. Reiteramos: a questão não é se Deus existe ou não! Isso não traz realmente o problema para o campo da Ética… onde queremos chegar? A questão é: que modos de existência a crença em Deus implicava? E que modos de existência a não crença em Deus implica? Do solo cristão nada mais pode brotar… mas isso não significa que não podemos encontrar mais terra fértil. É necessário muita coragem para transpor o niilismo fraco, aquele que debilita, desespera. Precisamos levar o niilismo até sua última potência e transformar o ateísmo teórico em um ateísmo prático!
Nietzsche diz que o importante não é a notícia de que deus está morto, mas o tempo que ela leva a dar seus frutos” – Deleuze, Anti-Édipo, p. 145
A morte de Deus é condição necessária, mas não suficiente para a criação de novos valores. Como suportar a morte de Deus sem sucumbir ao niilismo? Se Deus era a medida de todos os valores, se todos os valores eram medido pela palavra divina, então Nietzsche precisa trazer uma nova medida para estes valores que perderam seu sentido.
Nietzsche nos dá a resposta em alto e bom som: o Eterno Retorno. Sim, apenas o pensamento seletivo do Eterno Retorno nos absolve da morte de Deus porque apenas ele oferece uma nova maneira de medir e avaliar nossa existência! Esse deicídio não significa jogar todos os valores para o alto, ele implica diretamente uma transvaloração de todos os valores, um niilismo ativo. O Eterno Retorno é o contrapeso, o remédio é amargo que precisamos tomar!
Não é possível pensar o Eterno Retorno como nova medida sem levar em consideração a morte de Deus, e não é possível realizar uma transvaloração sem deixar para trás o peso da palavra divina que carregávamos nos ombros curvados.
É só com a morte de Deus e o pensamento do Eterno Retorno que temos finalmente a chance de criar novos e autênticos valores para nós. Apenas os Espíritos Livres conseguem dançar neste velório. Sem ninguém para dizer o que é certo e errado, bem ou mal, temos plena liberdade para decidir por nós mesmos, eis a bênção de nosso audacioso ato! Aqui está toda a importância da afirmação de Nietzsche: adquirimos agora a responsabilidade e a felicidade de sermos autores de nossa própria vida. Um mar de possibilidades se abriu!
O sentido de nossa jovialidade – O maior acontecimento recente – o fato de que a crença no Deus cristão perdeu o crédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. Ao menos para aqueles poucos cujo olhar, cuja suspeita no olhar é forte e refinada o bastante para esse espetáculo, algum sol parece ter se posto, alguma velha e profunda confiança parece ter se transformado em dúvida: para eles o nosso velho mundo deve parecer cada dia mais crepuscular, mais desconfiado, mais estranho, ‘mais velho'” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §343
O niilismo ativo, último estágio do niilismo, é o grande momento esperado por Nietzsche, o grande Sim que o filósofo legislador dá para a possibilidade de executar sua maior tarefa: criar. O que ele quer é que nos tornemos criadores reais para dar conta da morte do criador fictício! Só assim nos tornamos dignos o bastante desta grandiosa marcha fúnebre! Somente se nos tornarmos criadores seremos dignos da morte de Deus!
Talvez soframos demais as primeiras consequências desse evento – e estas, as suas consequências para nós, não são, ao contrário do que talvez se esperasse, de modo algum tristes e sombrias, mas sim algo difícil de descrever, uma nova espécie de luz, de felicidade, alívio, contentamento, encorajamento, aurora…” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §343
Todos os deuses devem morrer para de suas cinzas extrairmos novos valores! “O que Nietzsche queria era que se passasse, enfim, às coisas sérias. Fez doze ou treze versões da morte de Deus para não se falar mais disso, para torná-la um acontecimento cômico” (Deleuze&Guattari, O Anti-Édipo, p. 145). Aí está a importância da morte de Deus que nem mesmo os ateus do tempo de Nietzsche souberam encontrar.
Sendo assim, mesmo que Deus exista, é importante que nós o matemos, para andar com nossas próprias pernas! Ou como diria Bakunin, a única maneira de Deus servir à liberdade humana seria se ele simplesmente cessasse de existir. Pois bem, somos o filho que cresceu e quer agora libertar-se. Nem Deus nem mestre! Não podemos mais nos esconder atrás da sombra divina e dizer “Deus quis assim” porque agora a responsabilidade é toda nossa! Tanto para desfazer as verdades antigas quanto para criarmos novas e melhores formas de dizer Sim à vida! Viva a morte de Deus!
De fato, nós, filósofos e ‘espíritos livres’, ante a notícia de que ‘o Velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa – enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’“ – Nietzsche, Gaia Ciência, §343
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